BIOGRÁFICA

 

PARA UMA BIOGRAFIA FAMILIAR



            ALGUNS DADOS PARA UMA BIOGRAFIA
            FAMILIAR…
            (Bem humorada, quanto for capaz)

I – ANTES DE NASCER

     Será uma nascida ruim ?
     Perguntava minha árvore ao doutor
     referindo-se a mim !
   
     Para uma inesperada gestação
     só um tumor seria a explicação !

     Serei, assim e sempre
     Dois dias mais velho
     Que os papéis do meu concelho !

     Não confiantes na minha resistência
     Para enfrentar o ponto de interrogação
     A vida
     Fui registado a quatro
     Quando devia ser a dois
     Assim não houve contravenção !

     Vivo hoje dois dias adiantado
     Ao presente dos papéis!

     Resta-me a certeza
     E o segredo
     De para eles morrer
     Dois dias mais cedo!


2 – DEPOIS DE…

Nasceu um menino
Clandestino
Na fronteira da Alta Beira
De 1939.

Fruto de uma soma
De resultado oitenta e três
O seu dia foi dois
E Março o seu mês.

A consequência de uma falta
Nasceu um menino
Na Beira Alta.
      Quase dez anos… que horror !
      O separavam do menino anterior:
Logo, tinha que ser um tomor!

A mãe Natureza
Para o celebrar
Cobriu de verde o chão
E as amendoeiras de flor
Enfeitando-lhe o berço
De cor
E a ar de odor.
        Continua hoje o menino a amar
        O verde e da amendoeira a flor.

Pouco profundas suas raizes
No xisto e na montanha
Logo um vento nordeste o levou
Para uma terra estranha
        Onde riu e chorou
         E lutou na rua
Não para conquistar a terra
Da adolescência
Que era já sua.

Deambular por instabilidade
De sua existência faz parte
Na busca constante de beleza e arte.

Porém hoje na instituição
Deambula apenas o espirito
A matéria não!


3 – AO RITMO DA VIDA

Uns atrás dos outros
Sorrateiramente
Arrastando-se por vezes
Pelas rugas do cansaço.

Uns atrás dos outros
Como grupo de forcados na arena
O da frente provocando a investida
          Do medo que aumenta
          Pelos olhos do espelho
Em que me olho
E me certifico
Sem querer acreditar
Que as rugas são mesmo minhas.

E o novo dia surge da fila
Espreitando
Por debaixo do creme
Que insisto em usar
E que todos os dias removo
Para na área limpa outro espalhar
Tentando enganar o espelho
Mostrando-me as rugas em volta dos olhos
Eu mudo a direcção da luz
A potência da luz
Recuso mesmo encarar a luz
Em alguns dias
Depois de longas noites insones
De fuga cada vez menos eficaz à luz.

Mas eu resisto:
          Estala a camada
          Mas espalho logo outra.
Não choro para manter o verniz das lágrimas!
Não rio por já não saber rir.

E os dias
Implacavelmente
Luminosos ou cinzentos
Em fila indiana
Vão contemplando
Com seus olhos de Sol
A batalha que vou perdendo
À flor da pele!

        






                                                        Divagando sobre Luanda
                                                        … vinte anos depois
                                                        Hoje liberta e em construção.


Para o Adelino Tavares da Silva
Que não conheci pessoalmente.

Que, como eu, de beleza encheu os olhos
De Luanda
As narinas dilatou de perfumes acidos e fortes
Dos trópicos
E se deixou envolver pelo abraço vigoroso e definitivo
De Angola.



1 – SEM TITULO (narrativo)

É prodigiosa a capcidade de fixação das crianças ! Diz-se.

E é verdade!
Eu insisto em ter visto, viva, a minha avó paterna
Quando todos afirmam já ter falecido quando nasci
- Mas lá que eu vi, isso vi ! E por sinal numa casa que
  Todos garantem munca ter habitado !
 - …teimosos !!!
Quem me terá fornecido a gravação errada ?
Eu não inventei toda a cena – poso garantir
Por muita vontade que tivesse de a ter conhecido.
……………………xxxxxxxxxxx…………………………..
Bom seria qu assim não fosse
Pelo menos em alguns casos.

Que mal fizeram, afinal, as crianças
De todas as angolas do mundo para
De ultraje em exploração
De todas as suas formas
Colonialista, capitalista, imperialista
Serem sempre as vitimas?

Há que terminar com as causas
Definitivamente ! Ouviram !?
….
E que pensarmos da capacidade revelada
Para ragistar como num filme a cores
Aos vinte e dois, vinte e três anos?!

Não será tanto a idade quem determina, ou não, a capacidade.
Talvez sejam os contornos das imagens
Ou será a sensibilidade ?

Quase vinte anos depois
Numa noite de sessenta e dois
Estou de serviço
                            às duas da manhã
                            e às osgas
                            espalmadas na parede
                            junto da lâmpada tubular
                            de olhar fixo na borboleta
                            minúscula
                            até que…zás…!
                            ficaram aos cantos da boca
                            momentaneamente imóvel
                            aqueles dos remos translúcidos
                            cujos olhos a luz cegou
                            definitivamente.
A barriga translúcida da osga aumentava
lentamente
e ia ficando opaca.
Estirado eu no cadáver do sofá
deitado de costasb sobre os pensamentos
companheiros inseparáveis nas noites das osgas
e das mesas verdes do poker
e do abafa
e da parada em silêncio
interrompido apenas pelo
sentinela alerta ?
                            alerta está !
passa palavra!
                            sentinela alerta ?
E surgiam em catadupa as recordações
atropelando-se nos estreitos corredores da fonte
como milhões de fotografias com seu apoio sonoro
todas querendo ser as primeiras!

Alto lá ! Vamos pôr um pouco de ordem no caos.
Prometo que todas terão sua oportunidade !
Mas convencer aquela avalanche de que
com a necessária ordem só teriam a ganhar…!
Insano esforço!

II – CONTINUANDO

E lá vinha a boiar à superficie
do estômago e do nojo
no balouçar violento do Vera Cruz
de lavatórios entupidos
de restos de mucosa e visceras
os canos a recusarem-se
a dar passagem
                            à merda vomitada
                            ou ao vómito cagado ?!
ninguém pensava nisso!

Os pálidos guerreiros cansados
da batalha em viagem
estirados como bacalhaus na seca
os peixes voadores em bando
a indicarem o caminho
e o Vera Cruz a segui-los
ora mergulhando ou
se encabritando onda acima
revoltado contra a náusea
                            do mar vómitado
que nos cuspia de enjoados salpicos

A fantochada do exercicio de salvamento
                            ministrado pelos graduados de terra
                            com um ar enjoado como nós
                            os explicadores e o exercicio
O desejo quase patológico de ver
para gaudio do maralhau
o veloz empregado de mesa bater
com o nariz na porta da copa
que o olho de porteiro fotoeléctrico comandava
e que nunca falhou!

A sensação incómoda e caricata de ver
                            lá adiante no corredor
                            fardas inclinadas como ébrias
nos dias em que a ondulação era lateral

O acordar ainda cedo mas já dia
oito dias decorridos
                            e não ouvir o ronronar dos motores
                            vendo o Vera a tentar despejar
                            para um dos lados do mar
os milhares de prisioneiros
daquela ilha superlotada
de anémicos guerreiros!

Estávamos em Luanda!


III – AINDA NA NOITE DAS OSGAS

E aquele “ar” a tentar ser firme e solene
Passados oito dias de ressaca de mar
Quais sonâmbulos arrastados
Maquinalmente para a marginal
e para o calor!

Com palmas laterais e calor pastoso
                            atravessando o caqui
                            a sede a aumentar
                            a envolver de alto a baixo a
                            nossa capacidade cansada
e o esquerdo, direito
e o up dois
e o marcar passoooo
e o alto !
Olh’ó gelado fresquinho
                            tão longe…e eu com tanta sede!
Olh’ó gelado fres…
                            agora já perfinho!
Dê-me um, faz favor
                            e logo a sede a fugir da boca
                            e da lingua pastosa
                            e quase a chegar à garganta…
- Você aí, deite já fora o gelado ! Ordenam os galões.

E o gelado fresquinho
                            e tão desejado
apenas foi provocação da sede!


IV – A NOITE CONTINUAVA

De repente
sem que o conseguisse evitar
misturaram-se em cascata
                   o ataque cerrado de melgas na
                   Petrofina da primeira noite
                   as salvas diárias no cemitério em frente
O fuzilamento acidental, executado pelo furriel
                   Que dava uma aula de UZI
                   Que apenas tinha visto no Vera Cruz
O esguicho do panelão da sopa
                    De coração atravessado
                    Por uma das balas extraviada
O rafeiro do quartel a quem um saguim
                    Armado em jockey safado
                    Apertava os testículos até a revolta se
                    Transformar em fúria quando a
                    Um apetecia descansar à sombra e ao outro
                     A corrida a galope pela parada
Com o casamento coletivo de soldados nativos
                    Com negras de branco vestidas e
                     Ramo de flores de laranjeira e filhos
                     Pela mão ou no ventre e de
                     Sapatos-forca abandonados ao
                     Ar livre da missa campal

- “Meu alferes, então o ramo de flores de laranjeira, deixou de ser o símbolo da castidade?!”
   “ Está calado, não sejas herege!”
O negro do piquete na horta, a quem a surucucu
                     Beijou na cabeça de carapinha
                     E que morreu gritando de dor
                      Algumas horas depois no hospital
                     Perante a incapacidade da medicina
Com o comandante a caír no arame farpado da vedação
                     “se alguns saltam eu também saltarei”
                      E ficar caído ao lado da velha peça de artilharia
                     Do tempo dos descobrimentos
                      Ficando a sangrar da carne e da vaidade também
A boleia obrigatória nas viaturas militares
                     De angolanos a esmo acusados
                     De fumarem marijuana lá no musseque São Paulo
                     Levados para destino desconhecido
E o furriel apalermado conhecido em Sacavém
                      Que se gabava de ter violado uma criança
                     Negra de sete anos!
Isto é que é guerra !!!
Qual Angola é Nossa, qual merda?

Reis Caçote
1983/017

  


            ALGUNS DADOS PARA UMA BIOGRAFIA
            FAMILIAR…
            (Bem humorada, quanto for capaz)

I – ANTES DE NASCER

     Será uma nascida ruim ?
     Perguntava minha árvore ao doutor
     referindo-se a mim !
   
     Para uma inesperada gestação
     só um tumor seria a explicação !

     Serei, assim e sempre
     Dois dias mais velho
     Que os papéis do meu concelho !

     Não confiantes na minha resistência
     Para enfrentar o ponto de interrogação
     A vida
     Fui registado a quatro
     Quando devia ser a dois
     Assim não houve contravenção !

     Vivo hoje dois dias adiantado
     Ao presente dos papéis!

     Resta-me a certeza
     E o segredo
     De para eles morrer
     Dois dias mais cedo!


2 – DEPOIS DE…

Nasceu um menino
Clandestino
Na fronteira da Alta Beira
De 1939.

Fruto de uma soma
De resultado oitenta e três
O seu dia foi dois
E Março o seu mês.

A consequência de uma falta
Nasceu um menino
Na Beira Alta.
      Quase dez anos… que horror !
      O separavam do menino anterior:
Logo, tinha que ser um tomor!

A mãe Natureza
Para o celebrar
Cobriu de verde o chão
E as amendoeiras de flor
Enfeitando-lhe o berço
De cor
E a ar de odor.
        Continua hoje o menino a amar
        O verde e da amendoeira a flor.

Pouco profundas suas raizes
No xisto e na montanha
Logo um vento nordeste o levou
Para uma terra estranha
        Onde riu e chorou
         E lutou na rua
Não para conquistar a terra
Da adolescência
Que era já sua.

Deambular por instabilidade
De sua existência faz parte
Na busca constante de beleza e arte.

Porém hoje na instituição
Deambula apenas o espirito
A matéria não!


3 – AO RITMO DA VIDA

Uns atrás dos outros
Sorrateiramente
Arrastando-se por vezes
Pelas rugas do cansaço.

Uns atrás dos outros
Como grupo de forcados na arena
O da frente provocando a investida
          Do medo que aumenta
          Pelos olhos do espelho
Em que me olho
E me certifico
Sem querer acreditar
Que as rugas são mesmo minhas.

E o novo dia surge da fila
Espreitando
Por debaixo do creme
Que insisto em usar
E que todos os dias removo
Para na área limpa outro espalhar
Tentando enganar o espelho
Mostrando-me as rugas em volta dos olhos
Eu mudo a direcção da luz
A potência da luz
Recuso mesmo encarar a luz
Em alguns dias
Depois de longas noites insones
De fuga cada vez menos eficaz à luz.

Mas eu resisto:
          Estala a camada
          Mas espalho logo outra.
Não choro para manter o verniz das lágrimas!
Não rio por já não saber rir.

E os dias
Implacavelmente
Luminosos ou cinzentos
Em fila indiana
Vão contemplando
Com seus olhos de Sol
A batalha que vou perdendo
À flor da pele!

        






                                                        Divagando sobre Luanda
                                                        … vinte anos depois
                                                        Hoje liberta e em construção.


Para o Adelino Tavares da Silva
Que não conheci pessoalmente.

Que, como eu, de beleza encheu os olhos
De Luanda
As narinas dilatou de perfumes acidos e fortes
Dos trópicos
E se deixou envolver pelo abraço vigoroso e definitivo
De Angola.



1 – SEM TITULO (narrativo)

É prodigiosa a capcidade de fixação das crianças ! Diz-se.

E é verdade!
Eu insisto em ter visto, viva, a minha avó paterna
Quando todos afirmam já ter falecido quando nasci
- Mas lá que eu vi, isso vi ! E por sinal numa casa que
  Todos garantem munca ter habitado !
 - …teimosos !!!
Quem me terá fornecido a gravação errada ?
Eu não inventei toda a cena – poso garantir
Por muita vontade que tivesse de a ter conhecido.
……………………xxxxxxxxxxx…………………………..
Bom seria qu assim não fosse
Pelo menos em alguns casos.

Que mal fizeram, afinal, as crianças
De todas as angolas do mundo para
De ultraje em exploração
De todas as suas formas
Colonialista, capitalista, imperialista
Serem sempre as vitimas?

Há que terminar com as causas
Definitivamente ! Ouviram !?
….
E que pensarmos da capacidade revelada
Para ragistar como num filme a cores
Aos vinte e dois, vinte e três anos?!

Não será tanto a idade quem determina, ou não, a capacidade.
Talvez sejam os contornos das imagens
Ou será a sensibilidade ?

Quase vinte anos depois
Numa noite de sessenta e dois
Estou de serviço
                            às duas da manhã
                            e às osgas
                            espalmadas na parede
                            junto da lâmpada tubular
                            de olhar fixo na borboleta
                            minúscula
                            até que…zás…!
                            ficaram aos cantos da boca
                            momentaneamente imóvel
                            aqueles dos remos translúcidos
                            cujos olhos a luz cegou
                            definitivamente.
A barriga translúcida da osga aumentava
lentamente
e ia ficando opaca.
Estirado eu no cadáver do sofá
deitado de costasb sobre os pensamentos
companheiros inseparáveis nas noites das osgas
e das mesas verdes do poker
e do abafa
e da parada em silêncio
interrompido apenas pelo
sentinela alerta ?
                            alerta está !
passa palavra!
                            sentinela alerta ?
E surgiam em catadupa as recordações
atropelando-se nos estreitos corredores da fonte
como milhões de fotografias com seu apoio sonoro
todas querendo ser as primeiras!

Alto lá ! Vamos pôr um pouco de ordem no caos.
Prometo que todas terão sua oportunidade !
Mas convencer aquela avalanche de que
com a necessária ordem só teriam a ganhar…!
Insano esforço!

II – CONTINUANDO

E lá vinha a boiar à superficie
do estômago e do nojo
no balouçar violento do Vera Cruz
de lavatórios entupidos
de restos de mucosa e visceras
os canos a recusarem-se
a dar passagem
                            à merda vomitada
                            ou ao vómito cagado ?!
ninguém pensava nisso!

Os pálidos guerreiros cansados
da batalha em viagem
estirados como bacalhaus na seca
os peixes voadores em bando
a indicarem o caminho
e o Vera Cruz a segui-los
ora mergulhando ou
se encabritando onda acima
revoltado contra a náusea
                            do mar vómitado
que nos cuspia de enjoados salpicos

A fantochada do exercicio de salvamento
                            ministrado pelos graduados de terra
                            com um ar enjoado como nós
                            os explicadores e o exercicio
O desejo quase patológico de ver
para gaudio do maralhau
o veloz empregado de mesa bater
com o nariz na porta da copa
que o olho de porteiro fotoeléctrico comandava
e que nunca falhou!

A sensação incómoda e caricata de ver
                            lá adiante no corredor
                            fardas inclinadas como ébrias
nos dias em que a ondulação era lateral

O acordar ainda cedo mas já dia
oito dias decorridos
                            e não ouvir o ronronar dos motores
                            vendo o Vera a tentar despejar
                            para um dos lados do mar
os milhares de prisioneiros
daquela ilha superlotada
de anémicos guerreiros!

Estávamos em Luanda!


III – AINDA NA NOITE DAS OSGAS

E aquele “ar” a tentar ser firme e solene
Passados oito dias de ressaca de mar
Quais sonâmbulos arrastados
Maquinalmente para a marginal
e para o calor!

Com palmas laterais e calor pastoso
                            atravessando o caqui
                            a sede a aumentar
                            a envolver de alto a baixo a
                            nossa capacidade cansada
e o esquerdo, direito
e o up dois
e o marcar passoooo
e o alto !
Olh’ó gelado fresquinho
                            tão longe…e eu com tanta sede!
Olh’ó gelado fres…
                            agora já perfinho!
Dê-me um, faz favor
                            e logo a sede a fugir da boca
                            e da lingua pastosa
                            e quase a chegar à garganta…
- Você aí, deite já fora o gelado ! Ordenam os galões.

E o gelado fresquinho
                            e tão desejado
apenas foi provocação da sede!


IV – A NOITE CONTINUAVA

De repente
sem que o conseguisse evitar
misturaram-se em cascata
                   o ataque cerrado de melgas na
                   Petrofina da primeira noite
                   as salvas diárias no cemitério em frente
O fuzilamento acidental, executado pelo furriel
                   Que dava uma aula de UZI
                   Que apenas tinha visto no Vera Cruz
O esguicho do panelão da sopa
                    De coração atravessado
                    Por uma das balas extraviada
O rafeiro do quartel a quem um saguim
                    Armado em jockey safado
                    Apertava os testículos até a revolta se
                    Transformar em fúria quando a
                    Um apetecia descansar à sombra e ao outro
                     A corrida a galope pela parada
Com o casamento coletivo de soldados nativos
                    Com negras de branco vestidas e
                     Ramo de flores de laranjeira e filhos
                     Pela mão ou no ventre e de
                     Sapatos-forca abandonados ao
                     Ar livre da missa campal

- “Meu alferes, então o ramo de flores de laranjeira, deixou de ser o símbolo da castidade?!”
   “ Está calado, não sejas herege!”
O negro do piquete na horta, a quem a surucucu
                     Beijou na cabeça de carapinha
                     E que morreu gritando de dor
                      Algumas horas depois no hospital
                     Perante a incapacidade da medicina
Com o comandante a caír no arame farpado da vedação
                     “se alguns saltam eu também saltarei”
                      E ficar caído ao lado da velha peça de artilharia
                     Do tempo dos descobrimentos
                      Ficando a sangrar da carne e da vaidade também
A boleia obrigatória nas viaturas militares
                     De angolanos a esmo acusados
                     De fumarem marijuana lá no musseque São Paulo
                     Levados para destino desconhecido
E o furriel apalermado conhecido em Sacavém
                      Que se gabava de ter violado uma criança
                     Negra de sete anos!
Isto é que é guerra !!!
Qual Angola é Nossa, qual merda?

Reis Caçote
1983/017

ANGOLANOS
UMA DAS MINHAS FOTOS
A MINHA CASA 



                 
                   
                    
                  
                 





                           







 
          










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