DILUVIO AFRICANO- Veio de AVO REIS CAÇOTE





NA EPOCA DAS CHUVAS E DO CALOR


7 - O DILUVIO AFRICANO

Preocupava-me quase com sinceridade a ideia
 De não ser por um deus africano reclamada
A autoria do bíblico dilúvio
E da arca salvadora das espécies.

Esta preocupação quase sincera poderia
Contra minha vontade
Tornar-se em doentia obsessão.

Mas eis que tudo parecia estar resolvido!

Os deuses africanos
Apenas eles
Iriam disputar entre si
Apenas entre si
Nada de interferências estranhas
A autoria daquele dilúvio africano.

Começou pouco depois do meio-dia.

Raras mas grávidas pingas começaram a cair
Sobre a Maianga prevenida como rio seco
E a Luanda a almoçar.

Depois
Encostando-se umas às outras
Cheias e quentes
                            A escorrer pelas ruas
                            A lavar o alcatrão
                            A chocarem em cadeia nos cruzamentos
                            A galgarem jardins e passeios
                            A meter todos em casa.
Até perto das quatro horas.

Da forma como surgiu desapareceu
                            Bruscamente
E na sua avidez incontrolável
Engoliu ruas e casas
Com carros atravessados na garganta
Das ruas degoladas
E arvores a tentar cobrir
As bocas descarnadas das ruas.

Nem a Senhora da Muxima evitou
Que o monstro levasse parte de sua avenida
Em fuga migrou a contragosto
Para a zona da baía.
Reis Caçote
1980/dig.01/14








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