EDIFICAR LUANDA


 

PROMESSAS IDEALISTAS


10 - HEI-DE EDIFICAR-TE, LUANDA

Hei-de edificar-te, Luanda
                   Se calhar de dentes cerrados de distância
Hei-de edificar-te, Luanda
                   Se calhar de olhos afogados de sonho
Hei-de edificar-te, Luanda
                   Se calhar de punhos cerrados de revolta.

Hei-de edificar-te, Luanda
                   Passo-a-passo seguramente…

Hei-de edificar-te, Luanda
                   Pedra-a-pedra
                   Nesta sempre teimosa construção da Poesia:
Aspirando tua brisa iodada da restinga
Acariciando teus seios suaves de colinas
Inalando teu perfume profundo de flor tropical.

Descalçar esta hipocrisia de sapatos inabitáveis
Caminhar pelo calor vermelho do pó dos teus musseques
Beijar virgem tua cintura à chuva quente de Dezembro
Abraçar teu corpo mártir de cicatrizes a sangrar ao Sol
Ou…
Estendendo no chão da Maianga um tapete de flores de cajueiro
E sobre a areia solta a seguir ao rio seco
Onde o velho albino
                            Negro de pele branca de espanto e
                            Cérebro afogado nos vapores do quimbombo
Insistia em tentativas frustradas
Percorrer correndo ao fim do cansaço
A distância que o separava
Entre a vergonha e a cubata
Meta que fixava lá em cima
Rasgando a pele e a carne
Nas quedas sucessivas no desequilíbrio do passo
E da linguagem de insulto
Mas que sempre repetia até ao esgotamento.

Segurar fraternalmente todas as tuas mãos de esmolar
Saindo lenta e timidamente
                   Mãos-baixo-relevo de profundos rios
                   A espreitarem da larga manga
                   Que a solenidade dos panos definia
                   E uns olhos baços de lágrimas ausentes por ineficazes
                   Olhavam na espera de nada.

E de mãos dadas convosco
Percorrer a estrada em direcção ao futuro
E à dignidade sem esmolas.

Acolher-te em meus braços de eterno amante
                   De tua serena beleza
                   De filha da baía
                   Mistura de sal e terra
                   Que num permanente contacto de ventres
                   Com sexo de ondas
                   Vai mantendo com o Sol
Percorrendo de afago teus contornos
Que ao fim do dia
                   Timidamente ruborizado
                   Se suicida no Mar.

Hei-de edificar-te, Luanda!

Reis Caçote
1970










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