POESIA - LIVRE E DIFERENTE ( ESTAVA NO BLOG " CRIADOR" )
NESTE PONTO O FICHEIRO POESIA MILITANTE TINHA 95 PÁGINAS E 7054 PALAVRAS, VOU CONTINUAR…!
1 - LIVRE E DIFERENTE
E por fim
Cansado
De tudo de ti para min
Conservar
Verifico com alegria e tristeza
Num mesmo espaço-tempo
Que teu destino
Como o infinito
É ser isso mesmo
Albergar tudo
O bem e o mal
Infinitamente grande
A sempre prometer
Mas nunca se dar
Para ser livre e diferente!
Reis Caçote
1990/14
2 - FICAR, JAMAIS
Faço um esforço sobre humano
Para conservar dentro dos meus
Os olhos teus.
O teu breve e invulgar sorriso.
O sentir perto teu calmo gesto
Onda fresca e salgada de mar
À areia ainda fresca e húmida chegar
A abalar a chegar a abalar
Sempre assim~
A chegar a abalar
Como temos feito sempre:
Chegar-abalar
Vir-partir
Ficar é que nunca
Como o Mar
Reis Caçote
1970/14
3 - PERGUNTAS AO CRIADOR
Desde há anos vários que ando a adiar
Ter contigo esta conversa sã
Ainda que a esperança seja vã
De te ver acordar e dialogar.
Mas esse teu sorriso de ironia
Mantém-se exactamente igual
Desde “aquele dia “a este dia!
Um sorriso de satisfação e prazer
É o que me recuso a ver.
É que se fizeste o que tantos afirmam
O mundo e tudo o que contém
Há uma quantidade de anos
Não sei bem
Ou não foste tão rigoroso quanto dizem
Ou então
Terás de compreender
A minha incompreensão e
Por que não
A minha critica à tua obra
E ao teu sorriso gozão!
Terás mesmo feito o homem à tua imagem
Ou será mera desculpa dos actuais construtores?
É que alguns deles e não deixarás de me dar razão
Saíram uns bons estupores!
Acredito que ao fim de seis dias de trabalho
Fosse evidente teu cansaço
Já que nesse espaço d tempo eu faço
Bem menos e de certeza pior
Mas não o dou por acabado!
E lá estou no dia seguinte sem enfado
Para o continuar e
Muitas vezes aperfeiçoar!
Tu não!
Construíres tudo o que por aí vai
E ao sétimo dia descansares
Irás desculpar mas é dares-te
Uns certos ares… e sobretudo
Demasiado confiares!
E a porcaria que seria de esperar
Aí está
Em tudo o que é vergonha
Em tudo o que é explorar!
Terás sido tu porventura
Quem deixou dito e escrito
Que o Norte exploraria o Sul
E que o branco seria dos outros patrão
Durante séculos de escravidão
E que hoje ainda aí está
Dito que está erradicada
Só que feita de forma mais descarada
Mais desenfreada
Logo mais desesperada!
Que nada tens a ver com tanta contradição
Terá sido de outros e muito mais tarde
A criação de tanta aberração!
E terás sido tu quem entendeu
Que minha companheira não seria como eu?
E porquê, explica, se de ti partiu a decisão?
Irei ficar sem resposta? Espero bem que não!
Estavas só do que se sabe
Mas tal nem tudo resolve
E muito menos absolve!
É que ter o atrevimento
De sozinho fazer tudo
É quase certo e sabido
Que a maior parte do que fizeste
Em seis dias
Tinha de dar num enorme caso bicudo!
E está a sê-lo!
E cá vou fazendo meu juízo…
E estranhando teu irónico sorriso!
Reis Caçote, 1990/7
4 - VIVER SEMPRE
Viver sempre também cansa
O escreveu José Gomes Ferreira
Amigo meu!
Sobretudo viver muito e mal
Só assim o entendo eu.
Aquele amigo e parente de Leiria que insiste
Em implicar com o provérbio
“Que deus dá o frio conforme a roupa”
Teima que para não parecer um vazio
Deus devia dar a roupa conforme o frio
Tem uma lógica demasiado fria
Que não se resolve com poesia!
E não tem apenas lógica…
Tem ou não alguma razão.
Reis Caçote
MG27/6/90/14
5 - QUANTO EU QUIZ
Não seria alguma vez capaz de avaliar
O quanto eu quis dedicar-te esta noite
Aquela noite e todas as noites.
O quanto eu quis dedicar-te cada dia
Não os dias todos juntos
Um dia de cada vez
Um dia diferente cada dia
O quanto eu quis fazer para ti
Neste dia que passa e no que está para vir
Sobretudo e apenas para te saber feliz
E te ver sorrir.
O quanto eu quis
O quanto eu quero é
A certeza que não tenho
E o que me faz infeliz!
Reis Caçote
04/07/90
6 - TUDO NORMAL
Dias há que de boa vontade
Suprimiria
De meu calendário de vida.
Nem o Sol surgiria
Assim como não houvesse chuva ou nevoeiro.
Apenas consentiria
Para contentamento geral
O boletim meteorológico
No último telejornal.
E ouvir o meteorologista dizer
Naquele seu ar informal:
Hoje
Senhores telespectadores
Em termos meteorológicos
Nada sucedeu
Tudo foi normal!
7 - OCASO
De algum modo cansado no
Desgastar das férias entre paredes e calor
Delas reflectido
Decidi que ao menos um dia
A tua despedida assistir iria
E já pelo fim da tarde
De um dia qualquer
Dirigi-me para a beira-mar e esperei
Decididamente
Que esse teu vigor incandescente
Ao se aproximar
Lá ao longe do mar
Arrefecesse e mudasse de côr
De amarelo a vermelho
E aos pouco
Lentamente
Acabar por se afogar!
Reis Caçote
16/09/70
8 - TALVEZ NÃO
E o sábado trouxe de mansinho
Pela mão
Este Setembro
De cinzas vestido
Que entrou e se instalou
Com todo o ar de definitivo e
Sem autorização se fixou.
Na caixa de sons afectivos
A que insistem em chamar
E por que não?
De coração!
É o fim do Verão
Quente
Mesmo escaldante
Ou talvez não?
Ou talvez não!
Reis Caçote
01/09/90
9 - HÁ QUEM DIGA
Dilui-se na distância do mar
Esta linda mas ténue ilusão
De que em Agosto se calhar
Haveria calor e Verão!
Mas o que de facto houve
Custe ou não acreditar
Foi o aumentar da fronteira
Que sempre nos quis separar
Ou melhor dizendo
Sempre insistiu em não permitir
Nos juntar!
Mesmo de contornos pouco claros
Teve sempre poderes raros.
Há quem diga que é o destino
E que posso eu dizer
Se no destino insisto em não crer!?
Reis Caçote
02/09/90
10 - SIMBIOSE
Ainda há pouco para me divertir
Sem testemunhas e sem método
Resolvi dois “quadros” destruir!
Bem, destruir, destruir seria desacato
O que sucedeu é que os parti a meio
Fazendo de dois, quatro.
E de seguida
Levado na onda da boa disposição
Que vinha desde o almoço
Onde havia só laranja passou a haver também
Preto branco e amarelo
Alterando uma estrutura para outra
Sem que o “quadro” ficasse mais belo.
É que bela e gostosa
Foi a companhia do almoço
E a dobrada
Que estava bem saborosa!
Reis Caçote
19/07/90
DÉCADA DE 60 – DESPONTAR DE TANTA FLOR NA SAVANA DA GUERRA COLONIAL
1 - ESTRELAS
Estrela teimosa
Persistindo no suicídio
Por afogamento
Em cada noite que passa
E olho
Ali em baixo
Água parada
Em que procuro ver reflectidas
As rugas do meu pavor.
Que vem dos ramos sem andorinhas
E se agitam de frio
De lágrimas de estrelas
Sem lagos para o seu suicídio
De todas as noites.
2 - O QUE TENHO
O que tenho?
Um domingo quase no fim do látego
Uns montes que me oprimem
Um aparelho tv mal funcionando
Um programa repetindo
Umas nuvens baixas negras de chuva
Um vento estropiado de trote de rio barrento
Um quadro meio queimado
De castanho mal pintado
Uma falta enorme de inspiração
Para a revolta!
Uma merda!
3 - VINGANÇA
Incapaz de pensar
Para escrever
Escrevo
P’ra não pensar!
…vingança da incapacidade!
4 - OS POETAS
Como eu admiro os poetas
Que conseguem ver uma flor
Onde apenas vejo musgo
Que conseguem ver uma estrela
Onde apenas vejo uma lágrima
Que conseguem ver um amplo sorriso
Onde apenas vejo um esgar
Que conseguem ouvir um hino
Onde apenas oiço soluços
Que conseguem ver límpidos contrastes
Onde apenas vejo um borrão de cores esbatidas
Que conseguem ver um puro regato
Onde apenas vejo uma torrente de lama!
Ah! Eles são os verdadeiros poetas
Eu sou um complicativo.
Reis Caçote
5 - DIFICIL SER
Difícil ser vagabundo
De sonhos verdes
De banco de jardim.
Só resta o musgo nos muros
E outro pretenso vagabundo
Ao pé de mim moribundo.
Como é difícil ser vagabundo!
6 - EM BUSCA DE
Mais uma tarde inteira corri
Pela tempestade de poentes
De doirar lágrimas
Na esperança de encontrar-te
Nua
Em qualquer parte
Verdade
Voltei já tarde
Pelos mesmos caminhos
De látego marginal
Procurando correr de cansaço
Atrás de mim próprio7
Com a ideia de continuar amanhã
Com os pés descalços
Sobre as papoilas de lábios cerrados
Descrentes como eu
De encontrar-te
Em qualquer parte!
7 - FARTEI-ME
Fartei-me de carregar este fardo
De bruma constante
Que dificulta o voo das andorinhas
De todas as primaveras
À procura de seu ninho inabitável
De musgo nas janelas
E frio.
Frio de grades de aranha
A passar pelos corredores do cansaço
Da tarde que não chegou ainda
Mas se avizinha
Com a tristeza do trevo à chuva…
8 - INSULTO
Insulto matinal
De rafeiro de cauda erguida
No seu gesto natural
De levantar a pata traseira
E mijar
Displicente
No pedestal do busto
Do comendador!
9 - MORRER EM PÉ
Não para que todos soubessem
Mas gostaria de não morrer como eles.
Gostava de morrer na rua
Numa explosão
E projectar no espaço de bruma
O que não consegui em vivo
Tudo o que bom possuía .
Gostava de morrer em pé!
10 - ACUSAÇÃO
Continua a formar-se geada
No caminho de todas as cabras
No pasto de todos os vendavais
No recando de todas as fomes
Fomentadas.
Castigo frio para os que
Se cobrem com o Sol.
Os fabricantes dos cobertores dos outros.
Os que andam apressados pelos trilhos de todas as cobras
Cortados pelas lâminas de todos os nortes
Ameaçados com promessas de calor
Cansados…
Mas que a lua também beija.
11 - SEREI TALVEZ
Serei talvez um marginal
Por não aceitar
A amorfa confusão
Da sociedade a que na superfície pertenço.
Fartei-me
De amplos gestos
De palavras rebuscadas
De frases inconvenientes
De alardes de heroísmo
De revolucionários de café
Do colorido artificial e inútil
Da guerra dos jornais
De futebol.
Não preciso disso para escrever.
12 - NEM SÓ
Habitar sozinho
Esta raiz de orvalho
E espreitar pela manhã
A vida
Que se avizinha
Mo arrastar de pés cansados
Do dia anterior
E
Convidar esses seres
Para a refeição que não tiveram
E
Dizer-lhes que
Como os Senhores
Têm direito à vida
Pois nem só de trabalho
Vive o Homem.
13 - OUVIR SEUS AIS
Gesto guilhotina a rasgar
O véu translúcido
Mal cobrindo a ignorância
Não aceite
Só por alguns desejada.
Tempestade de pântanos
Calada elo chicote
Do não saber
Apenas poder.
Campeões do silêncio
Da incerteza
Do medo
Do isolamento
Dos favores dos senhores
Da inconsciência permanente
Dos deveres
Dos direitos que não conhecem
Do dizer sim quando é não
Das palmas nas ruas
Das flores nas ruas
Para não serem sempre campeões do silêncio
Para lá do véu que rasguei
Com gesto guilhotina
Numa manhã de coragem
Para ouvir seus Ais.
14 - MOÇÃO
Vai ser posta à votação
Na magna assembleia
Uma moção:
Para criação de um feriado
Que distinguirá o jardineiro
Deste jardim
À beira-mar plantado.
Se for “sim” haverá feriado
Se for não
- Poderá ser não ?
Será exilado.
Reis Caçote
Reis Caçote
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