RESGATADOS DOS ESCOMBROS DA POESIA LANÇADOS NOS LIVROS EM BRANCO!
1 - Sem titulo
O gostar ou não gostar
são já razões bastantes
para aceitar
ou recusar.
2 - Sem titulo
Vazias as mãos do menino
de olhar guloso.
Vazio o estômago
do olhar guloso.
De nariz esborrachado
no vidro da montra
da pastelaria
de olhar guloso.
Dedo na boca
de olhar guloso
sabor a nada na boca
nariz esborrachado no vidro
de olhar guloso
o menino de mãos vazias!
3 - Sem título
Árido pensamento o
de querer ver um olho aberto
no fundo da noite passada
de insónia.
Árido pensamento o
de querer encontrar a força
no fracasso do dia dezoito
que foi domingo.
Árido pensamento o
de querer um altar na mentira
do suborno da véspera
do Verão.
Árido pensamento o
de querer encontrar
o que os outros escondem
de cimento.
Porque não hão-de os limos dar flor
para espalhar nos lagos
dos cisnes cor-de-rosa
para lhes enfeitar as penas tempestade
e dar folga por uns dias
às escamas dos peixes vermelhos
sempre expostos no liquido écran
onde eu me olho
olhando-os
num vai-vém de encarcerado
que espera
de rabo pendente
o carcereiro de sopa
de reumatismo
de cerrar dentes.
Porque é que os patos hão-de
continuar a ser um vómito
de pântanos
as ruas um local de desencontros
de desconhecidos
de acidentes
de casos banais
de bons-dias entre dentes
de locais de tiroteio
de insultos
de ameaças em surdina?
Porquê?
4 - Sem titulo
Desventrada a noite de Verão
passado
de sombras de velas e fumo
carregada.
Reposteiro de meu vão de escada
carcomida
noite de bruma vestida
meu manto de nudez
de altivo
desenraizado.
5 - Sem titulo
É difícil não ter saudades dos compadres
do esquecimento.
Quando as paredes de soluços
tremem
no barroquismo de espuma de teus passos
Verticais
As ruas corridas de galhardetes
e de medalhas
dos que não voltam nunca
já libertos das mortalhas
e das armas
e deles próprios
A título póstumo.
6 - Sem titulo
Gostava se possível fosse
contrair os músculos de meus braços
e triturar entre minhas mãos
a mentira
a desonestidade
a hipocrisia
e seguidamente parar
para que todos ouvissem
dizer este poema
não o que é mas o que queria que fosse:
o choro da criança no berço e
a caricia da mãe
a fisga que projeta a pedra e
o vidro estilhaçado
a buzina do automóvel e
a paragem brusca dos travões
o gesto-menino rasgando o cortinado
o voo da andorinha rasando o chão
a espada sibilando em direção ao silêncio
a pistola que dispara que fere que mata
o regresso de Angola já esquecida a ida
a chicotada no lustroso pelo do leão
a subida a pé da montanha ao Sol de Agosto
o rebentamento do pneu a 150 km hora
o grito do atropelado ferindo os tímpanos
o grito coletivo dos 70 000 no estádio de futebol
a última injúria à coragem do árbitro
a última estátua à violência
o rugir do vento no canavial a noite passada
o desconforto do nu no ártico
o riso da hiena sem jardim zoológico
o desespero do roubado
o pregão do cauteleiro o jacto supersónico fendendo os ares
o foguetão ferindo o espaço
a pastagem do verde vale a dor do dente do siso a última bebedeira do sem esperança a lava incandescente do vulcão encosta abaixo
a reprovação no último exame o último negro morto em qualquer parte o último átomo de droga o último adeus à mentira o ultimato geral do cessar fogo a última mesura hipócrita a última concessão interesseira a última apologia ao tirano o último abalo de terra a última farsa de amizade a última porta de prisão a fechar-se com as celas vazias o último travão à inteligência o último estômago com fome a última pessoa sem lar a última barreira à liberdade a última fronteira entre os povos o último sono dos responsáveis o último tiro que não seja aos pratos a última cátedra inútil a última prepotência imbecil o abanão da conjuntura
insultando-a se preciso for para a aceitar depois
Renovada.
7 - Recomeçar
Vou recomeçar sem que me falte vontade de me acusar.
Por inércia não o faço.
Aguardava em silêncio
o fim:
destes desencontros de futebol de salão do movimento por ar e mar dos batalhões das explosões
das convulsões
das lamentações
das emigrações
da defesa da pré-história
dos monumentos sem glória.
Vou recomeçar: com o fingido cessar fogo no Vietname com o fingido das vénias em todos os cruzamentos com a continuação dos lamentos com a inauguração dos monumentos com os lugares por testamento.
Vou recomeçar: com os rios poluídos com os teus calos doridos com os vossos alaridos com a surdina dos inibidos.
Vou recomeçar: não para silenciar breve.
Continuarei a estar no meio de todos mas apenas com alguns capazes de morrer em pé!
8 - Fórmula inútil
Não te aceito fórmula inútil invento de um serão de capitalista.
Terei de desventrar-te espremer-te dissecar-te dar-te a luz do dia ou mesmo de néon
mas luz.
Fórmula resultante da matemática da noite do silêncio.
Só depois de te saber não mortífera mas democrática te poderei aceitar.
9 - sem título
Já caí duas vezes neste buraco de bomba
Não sei se é o mesmo buraco se o de outra bomba caída neste mesmo local de bombas ao amanhecer com o Sol
com a chuva quase sempre no mesmo buraco onde diariamente caio
Sem ruido!
10 - gostava de ser
Gostava de ser em cada dia que passa na poesia uma ameaça.
Escrever de esquina viva uma poesia agreste que ferisse as indolências afiada como cipreste.
Não permitindo certas tendências ser entendido mesmo pelos que não querem entender
Agitá-los desse sono de felino de lareira que sabe perto o dono
Escrever em letras descomunais para que esses anormais (na sonolência) façam de cada minuto um minuto de vivência
11 - ao professor
Alinhadas as carteiras
O gostar ou não gostar
são já razões bastantes
para aceitar
ou recusar.
2 - Sem titulo
Vazias as mãos do menino
de olhar guloso.
Vazio o estômago
do olhar guloso.
De nariz esborrachado
no vidro da montra
da pastelaria
de olhar guloso.
Dedo na boca
de olhar guloso
sabor a nada na boca
nariz esborrachado no vidro
de olhar guloso
o menino de mãos vazias!
3 - Sem título
Árido pensamento o
de querer ver um olho aberto
no fundo da noite passada
de insónia.
Árido pensamento o
de querer encontrar a força
no fracasso do dia dezoito
que foi domingo.
Árido pensamento o
de querer um altar na mentira
do suborno da véspera
do Verão.
Árido pensamento o
de querer encontrar
o que os outros escondem
de cimento.
Porque não hão-de os limos dar flor
para espalhar nos lagos
dos cisnes cor-de-rosa
para lhes enfeitar as penas tempestade
e dar folga por uns dias
às escamas dos peixes vermelhos
sempre expostos no liquido écran
onde eu me olho
olhando-os
num vai-vém de encarcerado
que espera
de rabo pendente
o carcereiro de sopa
de reumatismo
de cerrar dentes.
Porque é que os patos hão-de
continuar a ser um vómito
de pântanos
as ruas um local de desencontros
de desconhecidos
de acidentes
de casos banais
de bons-dias entre dentes
de locais de tiroteio
de insultos
de ameaças em surdina?
Porquê?
4 - Sem titulo
Desventrada a noite de Verão
passado
de sombras de velas e fumo
carregada.
Reposteiro de meu vão de escada
carcomida
noite de bruma vestida
meu manto de nudez
de altivo
desenraizado.
5 - Sem titulo
É difícil não ter saudades dos compadres
do esquecimento.
Quando as paredes de soluços
tremem
no barroquismo de espuma de teus passos
Verticais
As ruas corridas de galhardetes
e de medalhas
dos que não voltam nunca
já libertos das mortalhas
e das armas
e deles próprios
A título póstumo.
6 - Sem titulo
Gostava se possível fosse
contrair os músculos de meus braços
e triturar entre minhas mãos
a mentira
a desonestidade
a hipocrisia
e seguidamente parar
para que todos ouvissem
dizer este poema
não o que é mas o que queria que fosse:
o choro da criança no berço e
a caricia da mãe
a fisga que projeta a pedra e
o vidro estilhaçado
a buzina do automóvel e
a paragem brusca dos travões
o gesto-menino rasgando o cortinado
o voo da andorinha rasando o chão
a espada sibilando em direção ao silêncio
a pistola que dispara que fere que mata
o regresso de Angola já esquecida a ida
a chicotada no lustroso pelo do leão
a subida a pé da montanha ao Sol de Agosto
o rebentamento do pneu a 150 km hora
o grito do atropelado ferindo os tímpanos
o grito coletivo dos 70 000 no estádio de futebol
a última injúria à coragem do árbitro
a última estátua à violência
o rugir do vento no canavial a noite passada
o desconforto do nu no ártico
o riso da hiena sem jardim zoológico
o desespero do roubado
o pregão do cauteleiro
o foguetão ferindo o espaço
a pastagem do verde vale
a reprovação no último exame
Renovada.
o fim:
destes desencontros de futebol de salão
8 - Fórmula inútil
Terei de desventrar-te
Só depois de te saber não mortífera
Não sei se é o mesmo buraco
com a chuva
Agitá-los desse sono
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