POESIA MILITANTE II - PARTE
......CONTINUANDO
II PARTE
15
– TROVOADA
O
dia todo para lá do castelo
Fizeram-se
e desfizeram-se
Velos
de nuvens de lã branca
Que
subiam…subiam
Com
seus rostos deformados
E
enormes narizes.
O
Sol, farto daquele jogo de aparece-esconde
Desapareceu
de vez por detrás da orada do Anjo.
E
a avó Zéfa
Encolhida
na sua quase cegueira
Parecia
esperar pelos anos
E
pelo fim
Dentro
do seu xaile preto.
Baixo
e prolongado
O
primeiro arrastar dos móveis do céu
A
seguir à luz do grande fósforo lá fora riscado.
-
aí a temos !
-
Deus te guie !
A
luz intensa e o ruído entraram atenuados
Pelos
filtros dos ouvidos e olhos da avó Zéfa
De rosário na mão
Segurando entre dois dedos
uma Avé-Maria segredada:
-
avé Maria
Cheia de graça
(baixinho)
O Senhor é…
Luz intensa a iluminar tudo
Pelas frinchas da madeira da
porta e da janela
E pelos defeitos das telhas,
num telhado sem forro.
BUMMMMMMM
!
-
Santa Bárbara Bendita
Que no Céu estás inscrita
Com papel…
BUMMMMMMMMM
!
-
ai valha-nos Deus !
-
… em papel e água benta…
E
o garoto calado
A
tentar entender tudo aquilo:
A Santa Bárbara lá em cima
Ao pé do campo da bola
Fechada numa capela sem
janelas
Todo o ano até Setembro !
BUMMMMMM
!
E
nova faísca para lá do castelo
E
a Santa Bárbara todo o ano prisioneira
Protetora
das trovoadas
Nada
de atender à frágil súplica da avó Zéfa !
. Coitados dos que andam na lavoira !
- Deus queira que não l’es aconteça
nada!!!
15
- RIO LIS
Suporto
menos cada dia que passa
Essa
tua indolência de boi castrado
A
roçares-te, impotente
Pelas
ervas e areias das tuas margens.
Com
teu ventre pútrido
De
escamas quase ausentes
E
olhos turvos
Abandonas-te
Para
o encontro sempre marcado
Com
a quase moribunda
Outra
parte da lenda.
Não
tens o direito
Só
porque os poetas te enlearam
Nas
suas odes-feitiços
De
quase insensivelmente deixares morrer
Sem
protesto
Tua
amante.
E
sem protesto também
Para
a morte te encaminhares!
Tens
que acordar para a Vida
Nem
que para tanto tenha de insultar-te !
Em
vez de te entregares ao Mar
De
sexo pendente e abandonado
Terás
que recusar por algum tempo
Esse
regaço de sal
E
vires cá acima
Espumando
de cansaço e raiva
Arrastando
os salgueiros que ainda insistem
Vaidosos
Em
pentear seus verdes cabelos
Mirando-se
no espelho cada vez mais baço
Que
estilhaçará
Como
os frágeis diques
Que
insistem em prender-te
Frágeis
demais para deter tua revolta !
Ressuscitarás
à passagem
Qual
Messias que recusa ser cruxificado ao mar
Tua
companheira de lenda
E
abraçarás teus irmãos de caminhada
Anónimos
Restituindo-lhes
a esperança
De
te encontrarem como vivo irmão !
Se
necessário…pede ajuda ao Mar !!!
16
– APELIDO
Ao
fim de tantos anos de procura
Incessante
noite e dia
Pareceu-me
ter conseguido
Finalmente
Após
uma longa noite de insónia
A
solução para violar
Definitivamente
A
fanática rigidez da composição do meu nome:
Vou passar a nele
incluir
A partir de agora
Homenagem tardia
aminha Mãe
E a minha vontade
também
O
apelido de Caçote !
17
- O ELEITO
Para
festejar
D’Aubusson
Sua
vitória eleitoral
Fez
uma festa ao contrário,
Os foguetes não subiram
Desceram
!...
17-a-
SINOS OU ANJOS
Irei
continuar a não ouvir
Os
sinos das torres
E
a estar atento
Aos
suspiros dos anjos !
18
- DEUSES
E
por que não podemos ser
Um
deus
De
que se possa não gostar ?!
Reis
Caçote

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