POESIA MILITANTE - III -PARTE - 80 POEMAS- a partir do 19 ( ALVORADA )

CONTINUANDO COM A POESIA -  80 POEMAS


PARTE III



19 – ALVORADA


Vou expulsar de vez
Esta sensação de tristeza de
Fim de tarde cinzento
Vestir meus olhos de cristais de orvalho
Para receber-te alegremente
No vestíbulo da noite
Edificar contigo
Uma alvorada de Alegria !

Reis Caçote


20 – CANSADO


Despenteei teu cabelo
A escorrer pelas encostas da noite
Mesmo as madeixas de lua prateadas
Procurando tua boca com sabor a rio
Que beijei
Cansado
Ao amanhecer
Com a ternura fresca de meus lábios orvalhados!

Reis Caçote


21 – SEPARAÇÃO


Ao fim do dia
Cansados
Decidiram inventariar seus bens:
                                      Tinham-se apenas um ao outro !
Resolveram ali mesmo separar-se !

Reis Caçote



21-  DE NOITE…AMAR


Quando na rua faço amor
Com a noite
Finjo bater palmas ao guarda noturno
Para a manter acordada
                            Pela noite fora !

Reis Caçote


22 – DELIRIO



No apogeu do delírio febril
Esticava-me na noite
Enorme
Tentando chegar ao Sol e
Pôr a roupa a enxugar
De suor frio ensopada
Do outro lado do mundo !...

Reis Caçote


23 – EMERSÃO


Estou a ressuscitar
Nesta desesperada emersão
De voluntário afogamento
No oceano verde
De teus olhos multicores !

Reis Caçote


24 - GRUTA DE FOGO


Deixa.me descer contigo
Essa gruta de fogo
Que ateámos
E onde nos perderemos
Quando nos encontrarmos !

Reis Caçote


25 - BUSCAR-TE-EI …


Poderás não acreditar
Mas foi este meu último soluço.
Na procura de novas lágrimas
Talvez encontre a razão da alegria !
Buscar-te-ei então
Definitivamente
Ruborizado e trémulo
Como da primeira vez !

Reis Caçote


26 -  TEUS LÁBIOS


Quando a nave cósmica de
Teus lábios de pétala
Poisam nos meus
Despertam
                   vibrantes e libertos
hinos  de esperança
Todas as orquestras
                   síncronas
De meu corpo-universo!

Reis Caçote


27 - POEMA DE JULHO


Existe agora
Esta sensação de queda
No escuro que vem
Com sabor a calafrio
Da raiz de minha incapacidade
De cortar os pulsos
Nas arestas do fogo que acendi
Em Julho
Debaixo de forte bátega de chuva, hoje de lágrimas
Que não deslizam !

Reis Caçote


28 - IDADE PRIMAVERA


Mal tinha esboçado o gesto de espreguiçar
Um bocejo de sono leve e já vinha pelo ar
A borboleta sem corpo
                                      apenas asas transparências
Maravilhosamente grandes
A arrastar a manhã colorida
                                      de luz que meu leito invadiu
Fresco
De lençóis de folhas verdes
De margem de regato e
De idade primavera !

Reis Caçote


29 - TEU VERBO


E …
No final do longo dia de luta dura
Cai a noite tristeza
Estendendo uma negra asa
Sobre teu corpo exausto.
Apenas sobre o corpo !
Mas …
A serena manhã de sempre
Continua no teu sorriso
Na tua sensibilidade
E no teu verbo.
         Que nenhuma asa negra
         De noite imerecida
Conseguiu alterar !

Reis Caçote


30 - FLORES DE FEVEREIRO


São raras em Fevereiro
As flores !
                   Mas num gesto de magia
                   Em 11 de aniversário
                   Sobre o primeiro bocejo matinal
                   A natureza espalhou
                   Pétalas brancas aos milhões
                   Numa tentativa corajosa
                   De mudança do cenário habitual.
Corajosa, simpática tentativa
                   Mas frustrada
O acto anterior ainda continuava!

Reis Caçote


31 - BUSCA NA NOITE


Pelos interstícios da noite cálida
De pirilampos no silêncio
Fui tacteando teu corpo
                   que inventei…
Fresco e perfumado
A emergir das águas do rio
                   calmo, sensual…misterioso.
Encontrei apenas
Bruscamente desperto pela dor
Provocada por afiada garra de silva
E sabor a sangue no dedo.
Insistirei em procurar-te
Em todas as noites de calor
E pirilampos no ar
Esteja ou não o dedo sarado…
Hei-de encontrar-te a emergir das águas !

Reis Caçote


32 – ORIGINAL


No teu aniversário
                   Original vai ser minha prenda !
Aquela estrela mais brilhante!...

Reis Caçote


33 –LAGRIMAS



Lágrimas :
         Chuva salgada
         Tempero de alegria e dor
         Que não pode ser
Dos anjos ou das estátuas !

Reis Caçote


34 – FRUSTRAÇÃO


Grande é agora a frustração
Do meu amigo e vizinho!
         Era apolítico.
A sua politica era o trabalho
                   Fazia questão de recordar.
Era também contratado a prazo
                   Para além de apolítico.
Na passada semana
                   O contrato terminou
E o empregador não o renovou!

Reis Caçote



35 – DESPEDIDA


Não houve exatamente um adeus!
Mas deixei de ver por momentos
                   Com os olhos quase a se afogar
Nas lágrimas que não corriam!

Reis Caçote


36 - O LAMENTO


Se soubesses poeta Grande
De sensibilidade infinita
O quanto sofro de incapacidade de
Ao menos contigo me parecer,
Certamente desculpa me pedirias!
                   Mas ainda bem que não sabes
Enquanto sofro e procuro melhorar
Vou inventando
                   As pedras e os musgos cobertos de flores
                   As arvores vestidas de frutos
                   E de pássaros
                   Com a noite infestada de duendes
Que raivosamente afasto com o bico da lapiseira!

Reis Caçote



37 - PROTESTO CANINO


E o cão ladrava   ladrava   furioso
Junto ao pedestal da nova estátua
Aguardando inauguração!
Será que também o cão não gosta do homenageado?!
                   Ainda hoje não tenho a certeza
Se era gato escondido ou
Seria mesmo rejeição canina!

Reis Caçote


38 - AS SERRAS


As serras
                   Das alturas cansadas
Desceram às aldeias e cidades e
Enterraram seus pés
Nas frescas águas dos rios!

Reis Caçote


39 - OS PLANALTOS


Os planaltos
                   Ficaram-se pelo caminho
Já cansados da descida e
Ali adormeceram!

Reis Caçote


40 - OS DESERTOS

Os desertos
                   Desistiram de ser serras
Suados e logo secos
                   Sob aquele calor excessivo
Que os incendeia e desidrata!

Reis Caçote


41 - OS RIOS


Os rios
                   Procuram-se uns aos outros
Como loucos irmãos dum mesmo ventre e
                   Quando se encontram pensam
                   Que voltaram a ser um só
No seio do Universo!

Reis Caçote


42 - OS MARES


Os mares
                   Ávidos insaciáveis de rios
Para abrandar sua sede salgada
Esquecidos que já rios foram e
Berços de Lua que agora os comanda
                   Perderam seu mistério de superfície e
                   Resolveram que no Verão iriam servir
                   De fresca e salgada banheira
À multidão!

Reis Caçote



43 - E EU


E o que a mim sucedeu
                   Pequeno nada
                   Perdido no tempo e espaço
A inventar inversões de magnitude universal
E a não ser capaz de mudar a direcção de teu olhar
E o ritmo do teu coração
Apenas perdeu o domínio do seu!

Reis Caçote



44 - CONSELHEIRA…A NOITE


E a noite desceu
Sobre meus olhos cansados
Do Sol
E da ausência dos teus.

Esperava-a negra e opaca
Ocultando todos os seus
                            E meus mistérios.
Foi crescendo…
Quase como se do dia prolongamento
Com seus olhos brilhantes
Grandes…
Deste tamanho…
De que não consigo ver o limite.

E o esperado descanso de meus olhos
Foi um adiado projecto!

A noite nem sempre é boa conselheira
E muitas vezes é ainda
                            Pior companheira!

Reis Caçote


                           
45 - AMANHÃ SE VERÁ


Algo de anormal se passa
Na fluidez do espaço.
                            De anormal e desagradável.
Desde a noite passada
Algo começou a decompor-se
Como corpo celular em desagregação.

Ou será apenas invenção
Resultante
                            De cansaço ?
                            De incerteza ?
                            De fragilidade ?
Não ! É ainda cedo para pensar em desilusão…
Amanhã se verá, se tenho ou não razão !!

Reis Caçote



46 - POR ENTRE OS DEDOS


Tentei segurá-la na mão
Que com força fechei
Pensando que a tinha conseguido apanhar
No momento que pareceu passava perto.
Para a ver de mais perto
Ver sua cor
E aspirar seu odor
Fui abrindo a mão devagar…
Muito devagar…
A mão vazia e igual
Desenganou-me na violência:
                            A felicidade escapara  por entre os dedos!

Reis Caçote



47 - AO POETA


Ao poeta tudo é permitido
Ao poeta nem tudo é perdoado.

E aqui é que se ordenam ou complicam
E o poeta faz as suas opções
Cómodas ou incómodas.
O poeta pode ser irreverente´
E fá-lo algumas vezes fingindo.
O poeta gesticula e grita
Sem que canse os braços e a voz.
O poeta inventa para si um espaço
Onde nem sequer se consegue encaixar.
O poeta “desencadeia” e guerras “faz”
Só para sentir o prazer de construir a Paz.
O poeta inventa uma flor impar
Mesmo quando não tem a quem a dar.

Do poeta o que me agrada afinal
É o afirmar-se ou negar-se sem que de tal
Faça regra ou ritual !

Reis Caçote



48 - POETA E POESIA


Provavelmente até terão razão e
Na busca de novos caminhos para a Poesia
Tu não passarás de uma utopia
Saída de minha irreverente (ou interessada ?) invenção.

E esses teus olhos ternos não serão reais
Fazendo parte do conjunto dessa imagem
Que eu fui construindo dessa miragem
Feita só de detalhes virtuais.

Sê-lo-ão do mesmo modo teu ar terno
Que existirá apenas a meus olhos
Esta vida quase só feita de escolhos
É bom estar em teu espaço tão ameno.

És capaz de ser a desilusão
A negação do mito criado
Pela minha frágil invenção.

Desilusão ou não és tu
Ultrapassando largamente qualquer invenção!

Reis Caçote



49 - MÁQUINA DO TEMPO


Criei a máquina do tempo
Em noites de insónia e cansaço
E nela me sentei para descansar.

Fiz um programa de pormenor para a largada
Em direcção ao futuro contigo de mão dada!

Em verdade o programa falhou
E a máquina nem sequer arrancou!

Reis Caçote



50 - EM VÃO


Durante anos a fio
                            E a frio
Fui vencendo a tentação de procurar
                            E encontrar
Um tema constante
                            E consistente
Para sobre ele escrever !

Em vão !

Escrevia, quando o fazia
                            Sobre o que em cada momento surgia e sentia.
Insignificâncias quase sempre
                            Por incapacidade estrutural
                            Ou vocacional
Para escrever sobre o transcendente.

E quando escrevia era sempre
                            Podes crer
Era para do acto tirar algum prazer.

E tirei-o ! E tiro-o sempre que escrevo!

Reis Caçote



51 - PEGO NOS TEUS POEMAS


Quando a noite impiedosa
Engole a última réstia de luz
E no calendário imaginário
Que me suplicia sem dó´
Risco mais um dia
Um dia qualquer
Em que permaneci só.

E pelo espaço de meu ser
Destinado a permitir tudo o que é mau
Deixa que nele cresça uma dor aguda
E uma raiva surda
Por não ter a capacidade e a coragem
De me contentar com tua imagem!

Dou comigo a insultar-me intimamente
E a me acusar de ser como todos
Sem algo de especial e diferente!

Então pego nos teus poemas
                            Que leio
                            Releio
E quero que eles sejam tu
E eu deles fazer parte
E só quando forçado a acreditar
Os aceito no seu no seu significado real

Da expressão e sensibilidade feitas Arte!

Reis Caçote



52 - CORAÇÃO LOUCO


O que será preciso fazer
                            Ou não fazer
Para que este louco coração
Pare de me obrigar a sofrer ?

Era bem tempo já
E com mágoa o confesso
De tornar real a frieza
Mas não obtenho sucesso !

E se a ideia mais frequente tem a ver
Com o atraso com que parti
Logo outra se lhe segue e me sossega:
                            Assim sofrerás menos tempo
                            É assim melhor para ti !
Mas por que hei-de sofrer
Se o que procuro é a felicidade?!

Resposta não há! Quem me a dará?

Reis Caçote



53 – COMETAS


Do que sobre cosmografia aprendi
E nunca estudei
Foram os cometas que mais gostei !

Ao contrário das estrelas e planetas
Uns das outras dependentes
Os cometas vagueiam pelo universo
Aparentemente livres e sem órbita definida.

Quisera eu na vida ser um cometa !

Afinal descubro que não passo
De um vulgar e sedentário satélite
Mortal e umbilicalmente ligado a este planeta!

E como se isso não bastasse
Entras tu no meu cósmico espaço
Como se do Halley se tratasse e
Em vez de me levares
Na tua viagem louca
Abandonas-me quase sempre
Invariavelmente sem promessas
E um sabor amargo na boca!

Reis Caçote


54 - TEM CALMA


…mesmo assim sofrendo
Como cachorro acabado de desmamar
Sempre me vou prometendo
E enganando
Tem calma isto há-de mudar!

Mas o quê há-de mudar?!
Eu?
Tu?
Ambos?
Eu só?
Tu só?

A perguntas sem resposta
Como estas
Sendo afinal bem pouco
É tudo quanto me resta !

… será mesmo tudo o que resta?!

Reis Caçote


55 - PAUSA POETICA


Durante nosso encontro na gelataria
Confessei-te e é verdade
Que tinha parado com a poesia !

Não por me sentir doente fisicamente
Só que não andava nem ando bem
                                      Psiquicamente.
A poesia de que sou capaz
Que devia ser de horizontes ilimitados
Resume-se por inteiro a ti
Nestes devaneios tresloucados.

Qualquer dia ainda aceito
Para descanso meu e algum cinismo
Que afinal o que me proponho
É a prática do masoquismo !

E isto me assusta, podes crer
Por comigo tal prática nada ter a ver!

Reis Caçote



56 - CARDOS NO CAMINHO


Eu sei que assim o que faço
É de cardos e silvas encher meu caminho!

E sei que terei de o percorrer
Descaço e nu
Desde que me reste a esperança
De no final estares tu.

Bem mais me foi prometido
E bem menos me foi dado
Custando muito aceitar
Já vou ficando treinado.
                   Treinado mas não acomodado!

Reis Caçote



57 - AMAR-TE


Amar-te
                   É o que a cada instante me prometo
Amar-te
                   É o que neste momento quero
                   E o que amanhã quererei
Amar-te
                   E não o fazer em segredo
                   Quero amar livremente
                   Sem qualquer partícula de medo.
Amar-te
                   Como amo a vida, o ar, o Sol e o Mar
Amar-te
                   Desta forma simples e franca
                   Como a gaivota ama o mar
Amar-te afinal
                   De todas as formas
                   E as que estão por inventar.
Mas que inventaremos um dia
Tal como o fazemos agora… na Poesia!

Reis Caçote



58 - TALVEZ UM DIA

E enquanto me não convenço
De que tal possa suceder
Vou registando o que penso
Sobre ti…sobre o amor…até ver !

Até ver por quê ? Até ver o quê ?
Se amar-te é tudo o que quero fazer ?

Amar-te sempre e de todas as formas
Com a ternura que mereces
Com o carinho que tenho    Amar…
Teu pensar privilegiado
Tua sensibilidade incomum
Fundir no teu o corpo meu
Num definitivo abraço e
Dos dois corpos ficar só um !

Amar-te sempre e de todas as formas e
Sermos ambos a definir as normas.

Amar-te ao alvorecer
Com o primeiro raio de Sol
Sobre a relva de um jardim
Ou sobre milhões de pétalas espalhadas
A servirem de lençol !

Amar-te sempre e de todas as formas
Do sol posto ao fim do outro dia
Desde que sintamos prazer e alegria
E que o amor seja sempre companhia.

Para que não seja apenas amor
E seja também Poesia!

Talvez um dia…
                            Será um dia!

Reis Caçote



59 - CORPO? VERDADE?


De olhos cansados vou
                                      Teu corpo inventando!
Em traços largos e breves registo
A suavidade dos contornos
Que mal se notam na planura da tela!

Aparecem
Na extremidade de meus dedos
Duas gotas de cristal que coloco
Uma a uma na “cavidade” orbital.

Mas de repente decido
Por uma questão de dignidade
Desistir de teu corpo inventar
Se ele não corresponde à verdade.

E quem sabe a Verdade de teu Corpo? Ou do meu?

Reis Caçote



60 - OUTRO CORPO?


Num pedaço de cartão
Os lápis de guache criaram
Caído no chão
Um corpo disforme
Sem mãos    sem  braços
Sem coração!

Apenas uns pés nus
Espreitando sob um amontoado de trapos
Sem categoria e feitio definidos
Vencem o cinzento do asfalto
E aconselham o silêncio.

Um corpo desenhado e cansado
Está presente nos degraus
Do edifício da vida que o

Nem eu…!

Reis Caçote



61 - SE CALHAR


A promessa de calor do Verão
Que se perfilava no zénite do teu olhar
Deixou-me um céu com nuvens
Ameaçando futuro incerto
Sem Verão sem Primavera
Se calhar só de Outono e Inverno
                            Se calhar  Se calhar…
Um Futuro se calhar!

Reis Caçote



62 - ATÉ VER


Foram sempre os espaços ocupados
Por muita gente e diferente
O meu lugar preferido.

Não em busca de confusão
Nem à procura de ruído
Apenas na multidão podia
Se quisesse ficar escondido!

Esse hábito foi mudando
Está mudando
Até quando?   até quando ?
E agora sem querer
É só que me encontro
                            Até ver    Até ver!
E até ver
                   Sem querer!

Reis Caçote


63 - ALI, DO LADO DE FORA


23 horas e 30 minutos

Ali
Do lado de fora
Cai a noite sobre corpos
Que se refrescam nas esplanadas
Sobre corpos que se dobram
Sobre as máquinas
A desenhar figuras geométricas
No aço ou no vidro
Corpos que de tão cingidos
É difícil saber se são dois se um só
Bocas que se buscam ardentemente e
Mãos que inventam poemas
Nas pontas dos dedos trauteando
Melodias de amor
No percurso dos corpos
De fim de Junho
 Nem todos estão perfumados e
O perfume é-lhes transmitido pelo amor.

Mesmo que dure só até final de Junho!
Ou até ao fim da noite!...

Reis Caçote


64 - FIM DE JUNHO


Por que seria amarga a
Última amêndoa que restava !?

Por que seria triste
Meu último olhar !?

Por que só agora
Mais que ontem
Neste final de noite de Junho
Onde nem sequer o calor tem a
Coragem de ser real ?!

Por que este final de Junho
Há-de ser de coragem irreal
E a última amêndoa que me restava
Tinha um sabor amargo
                                      Anormal?!

Reis Caçote


65 – PROMESSA


Prometera há pouco não escrever mais hoje.

A meia noite vinha e vem aí
Por isso eu prometi.

Eis que de repente
Sem qualquer razão aparente
Desvio os olhos do livro que estava a ler
E olhei em volta :
                    Quarto razoavelmente iluminado
                   Móveis quase inexistentes
                   Duas cadeiras de fórmica e pés tubulares
                   E por aí espalhados livros
                   Por ler e já lidos
                   Um saco de recordações
                   Uma esteira de palha
                   Um quadro mal pintado
                   Na técnica a que alguém chama gestual
E eu sentado no colchão
Assente directamente no chão
Vestindo apenas o relógio
E de bloco e lapiseira na mão:
                   Serei uma visão erótica ou de evidente solidão?!

Reis Caçote


66 – FOTOGRAFIA


… e por que hei-de admitir
Só por que é real
Que a noite lá fora
Está escura e fria
E não poderá estar
Se eu decidir pensar
Que a noite está bestial
E com um brilho como se fosse dia?!
Quem me impedirá  de um dia
Da altura deste 2º andar
Se decidir à noite
alterar
Sua real fisionomia?!

Aí está o que é impossível
Ao fotógrafo fazer!
Mesmo usando os mais sofisticados materiais:
                            Alterar à noite fotografada
                            As suas cores reais !
Será por isso que um dia deixei a fotografia?!

Reis Caçote


67 - AINDA O SONHO


E ao meu sonho subo
Correndo
Pela espiral do meu grito
Para do ponto mais alto
Ver teus olhos de afago
E então acordar
                            …serenamente!

Reis Caçote



68 - SÃO DE INSÓNIA


São de insónia a quase totalidade das noites
Que tristemente recordo.

São de insónia os vincos que rodeiam meus olhos
De raiva incendiados.

São de insónia meus passos incertos
Pelas manhãs mal acordadas

São de insónia e de revolta
Estas pertinazes incapacidades de
Violar o jardim mais próximo
E
Ao alvorecer apanhar a rosa
Ainda quase em botão
Orvalhada e
A colocar entre os cabelos!

Reis Caçote


69 - OUTRO OU O MESMO


E o sonho persistindo
Pela noite e madrugada
Colocou sempre nos meus olhos
Teu rosto que me sorria
E teus braços que se abriam… esperando-me.

Acordei sem alma e
Sem corpo sensível
E à minha frente apenas
Uma mistura incompleta
De várias tintas
Que não fugiram do caixilho!

De ti só o sonho resta!...

Reis Caçote


70 - EU SEI QUE


Eu sei que não devo construir
Ilusões injustificadas.

Eu sei que talvez nem mereça sequer
Uma réstia de esperança.
Eu sei que
Eu sei que                 
Eu sei que
Mas sei também que                                           
Me não deve ser negado o direito                                        
De aspirar a ser feliz!

Reis Caçote
                      
                                                                                                                                                   
71 - BREVE ADEUS 
                                                                                                  
Durante todo o tempo
Que o debate durou consegui
Sem esforço
Assistir e atentarão que se passava
E simultaneamente construir
Com menos esforço ainda
Um castelo de cristal
Que sobrava de teus olhos
E contigo nele couberam
Dentro dos meus
Adquirindo um novo brilho.

Mas um breve adeus te levou
E o castelo de cristal não passou
De duas lágrimas
                            A rolarem pelas faces!

Reis Caçote


72 - É NESTAS NOITES


É nestas noites de solidão
Com o vento em espasmos de espaço e
A chuva em orgias de charco e
O ribombar dos obuses cósmicos em delírios de ruido e luz
São os meus companheiros
Que me trazem sobressaltos

Que me trazem sobressaltos !

É nestas noites de afecto desnudadas
Que me tentam a tudo renegar
E a elas dedicar
Incondicionado

Este tempo excessivo!

É nestas noites de frio
Que insisto em interrogar teus olhos
De conformada tristeza
E na falta de resposta
Acabo por deparar com os meus
Reflectidos no espelho!


Reis Caçote










73 - O ABRIL


Partilhámos este ano
Enfim
O Abril-Abril
E o das Águas Mil.

Debaixo de chuva intensa
E de chapéu partilhado
Construo de Abril novas promessas
Que os teus olhos afirmaram!

Reis Caçote


74 - BECOS DA NOITE

Insiste a noite em criar
Artificiais becos
Para esmorecerem minha vontade
De chegar onde tu estás.

Em vão…!

Mesmo às escuras
Nas noites de becos artificiais
Teus olhos orientam meus passos
Sem erros me conduzem a ti.

O espaço não conta nas noites
De becos inventados!

Reis Caçote


75 - MEU GRITO


Na esperança acrescida
De me fazer ouvir
Aqui fica escrito
Em decibéis de silêncio
O meu grito.

A esperança que deposito
Neste meu grito escrito
Há-de superar em eficiência
O que lhe falta em ciência !

É sempre a ciência
Que resista a tua ausência.

Mas ao desejo de ter-te junta a mim
Não há dificuldade que impeça.

Em poesia tudo é possível : inventando!
E há quem garanta que no amor também.
Eu não acredito
                            Daí o meu grito… Escrito!

Reis Caçote


76 - SEM NOME, OU…


… não leriamos os mesmos autores, não seríamos capazes
De libertar o pensamento

E deixá-lo
                   Nas noites sem lua
Estampar-se à velocidade da luz
Contra a esquina do prédio do fim da rua!
E de cauda entre as pernas
Regressar
Para de novo disparar
Iluminado o caminho
Pela luz esverdeada
Que emana do teu olhar.

Em busca, ao que diz,
Da forma que entenda ser Feliz!

Reis Caçote


77 - SE INSITEM


… se insistirem que a nossa comunicação se faça através de
tua parte louca de poeta…vamos em frente

                   de mãos dadas pelas avenidas
                   atapetadas de folhas de Outono
                   douradas
                   cansadas de sol e de luz.
E assim pelas mãos ligados
E pela sensibilidade
Já longe da cidade e em direcção ao mar
Criaremos novos poemas
Que atiraremos ao ar
Para quem os quiser apanhar.

E à beira-mar
Se o tempo aconselhar
Mergulharemos nas águas salgadas
E poder assim contemplar assim
Teus olhos verdes de rio
E teu corpo a emergir do azul
Num justo vestido branco…        
                                      De cetim…!!!

Reis Caçote



78 - OS TEUS OLHOS…


Estive já
Por dentro dos teus olhos
Que sorriam.

É interessante este reflexo
De espelho
Em que os teus olhos estão
Fora e dentro dos meus.

E já tentei também
Sem resultado que se notasse
Meter-me por dentro do teu pensamento.

Impenetrável aos meus apelos
Não respondeu.

Por isso busco os teus olhos
Mesmo quando os escondes
Atrás de cortinas de vidro !

Reis Caçote


78 - COURAÇÃO!


Durante todo o dia
Em meus olhos acumulei
Os mais brilhantes raios de Sol.

E como projectores
Teus passos acompanharam
Desde o primeiro degrau do centro comercial
Até à mesa circular onde te aguardava.

Temendo que o coração
Do seu lugar habitual
E atrás dele tivesse de correr
E o repor
No espaço que parecia recusar.

Não saltou para a esplanada… e fez mal
                   Acompanha-me agora
                   Na noite
                   Mais só… mais noite!
Hás-de habituar-te, coração !
                   Amar nem sempre é dia!
Aprende ou então vira COURAÇÃO!

Reis Caçote


80 - A LEITURA


É quase sempre com prazer
E um misto de expectativa
Que inicio a aventura da tua viagem.

Por vezes me impões um ritmo acelerado
Outras me recomendas calma concentração
Como se numa viagem de comboio a
Variedade geográfica fosse de relevo leve
Ou então se espraiasse por longa planície
Onde a viagem parece não ter fim.

Rindo até às lágrimas tantas vezes te percorro
Meditando me envolves tantas outras
Apresentando-me a amigos que desconhecia
Também a inimigos que não esperava !

Rápida e lentamente te percorri
Convivendo com gentes em tão diversos lugares
Que pelo caminho me apresentaste.

Cheguei ao fim da viagem
E uma grande tristeza me invade:
                   Fechar um livro é como bater com a porta
                   Na cara dos amigos que me apresentaste
E com quem deixei de conviver!

Reis Caçote


81 - POESIA DA NOITE


Nesta noite de quente magia
Com a Lua a espreitar no pinhal
Transformo-me na brisa suave
Que entreabre a janela de teu quarto
Onde dormes um sono calmo e natural.

Na penumbra de teu quarto
Onde transformado em brisa eu entrei
Existe um poema adormecido
Coberto pela transparência do lençol
Que eu brisa leve …levemente
Vou descobrindo e refrescando.

Extasiada a brisa olha o poema
Transformado no teu corpo
Que calmamente respira
Afagado pela brisa
Que decide não fazer ruido
E não deixar o teu quarto
                   Fresco o quarto do poema-corpo!

Reis Caçote



82 - POEMA INCOMPLETO


Há um poema incompleto
No interior de meu ser
Poema que algum dia serei capaz de escrever.

Um poema desesperado
Cortina incapaz de separar
A ilusão mais deslumbrante
Do futuro triste e solitário.

Há um poema incompleto
Que gostaria de terminar
Ou então passar
De poema na mão
A cortina entre a ilusão e a desilusão
Com o poema incompleto na mão!

Reis Caçote


83 - ESCREVER, ESCREVER


Estranhei atá agora
Como era possível num só dia
Desencadear uma tão vasta onda
                                               de  poesia!
E isso mesmo afirmei
Penso que mais que uma vez.

Se fosse hoje
A tal não me atreveria
Pois a sensação que tenho é
Se quisesse
De escrever não pararia!

Isto não só com poesia tem a ver
Mas sim escrever     escrever     escrever!

Reis Caçote


84 - APENAS EU


Mas que culpa podes ter?!

Se um culpado tem que haver
Serei apenas eu
Podes crer !

Eu    
         Apenas eu
Poderia ser apontado
Por o teu calmo viver
Sem querer
Te ter desviado !

É este receio que até ver
Me poderá fazer sofrer!

Reis Caçote


85 - ME DISPERSO


Passam as horas e
Meu corpo está cansado
                            Do calor
                            Da solidão
                            Da falta do que não tive
O calor de tua mão.

Muda o dia no calendário
E eu continuo
Continuo sempre 
A desejar o contrário!

E assim me disperso
Pelo espaço de teu ser
Que a meu ver  
                   É todo o Universo!

Reis Caçote


87 – SUAVEMENTE


Suavemente
Minhas trémulas mãos
Tocam teus olhos
Que insistem em fixar o chão
Como se do chão emergisse a força
Dos poemas que a distância te inspira!

Dizes que as palavras
Vindas de um planeta distante
Que sabes existir
Sem nome e se calhar sem vida
Dele apenas percorrem o espaço
As palavras que em vida foram ditas
E que tu
Mágica antena
As capta e regista em caracteres terrenos.

Mas seria muito alegre a vida
Nesse distante planeta
Pelos registos que aí ficam!..
                            A menos que a tradução seja imperfeita!

Reis Caçote


88 - EM CAUSA


Aqui nego meus mestres
De história e de geografia
Desta altura e sem vertigens
E sem glória
Que vou subindo
e descendo
quer de noite quer de dia.

O primeiro me ensinou
Que mais isto a mais aquilo
Foram feitos por A e por B
E dava-se por satisfeito
Depois vivendo tranquilo!

O segundo estava cansado e desanimado!

E o que eu e todos nós fizemos?

E o que deixámos por fazer?
Quem o irá ensinar e
Quem o irá aprender?

Sim
Digam-me lá
Mestres da história e da geografia
Da matemática e da filosofia ?

Dizem hoje ou qualquer dia?!

Reis Caçote


89 - PARAR DE PINTAR…NÃO


E onde estará o mal
De que alguém como eu
Incapaz de copiar
Este ou outro plano natural
Decida pegar em qualquer objecto
Encharca-lo violentamente num caco de tinta
E sem qualquer regra definida
Inventar ou criar
Novos planos ou plano algum
E chamar-lhe depois a arte de pintura gestual!

Criar o que já foi criado
É ato que me não seduz
Depressa fico cansado!

Se quiserdes e vos der satisfação
Não lhe chamem coisa alguma…
Eu
Volto na mesma às tintas
Agora noutra dimensão!

Parar…?...só quando me cansar!

Reis Caçote


90 - ESCREVER AO SOM…


Escrever ao som da orquestra de balet  do Canadá
É certamente ato que
Não mais se repetirá !

Por isso aproveitei
Experimentei e gostei.

Penso até
Se nova oportunidade surgir
A experiência voltarei a repetir .

Seja ela a do Canadá , da China ou do Japão
Pois me pareceu que a rescrita
Ganha uma diferente dimensão!

E um ritmo diferente por que não

É o que me
                            Acrediteis ou não ! o que me parece

Reis Caçote


91 - SOBRE TI


Vinha de algum tempo a prometer
Que aos poucos e com pesar
Sobre ti deixaria de escrever.
Com alguma dificuldade Confesso
Cá vou cumprindo a promessa
Que não raramente esqueço
E sobre ti escrever recomeço.

Passa tão subtilmente do pensar ao agir
Quase me convencendo
Que a mim mesmo estou a mentir!

Devia ficar chateado
Mas prefiro levar isto a rir!

Um dia será sério! Um dia…mas quando?

Reis Caçote


92 - POESIA INCOMPLETA


Andava de há muito recordar
O titulo da obra de
Mário Dionísio:
                            POESIA INCOMPLETA
Agora chegado ao termo da leitura
E me certifiquei que era mesmo o fim
Compreendi o porquê do título!...
Incompleta para ele
E sobretudo para mim!
O que é bom não devia ter FIM!

Reis Caçote


93 – RECEIO


Há pouco o espelho
Devolveu-me a imagem
De alguém que não era eu!

Olhos encovados
De negro circundados
Vestígios da noite passada
Em que pouco dormi
Para não dizer que foi nada.

Os gestos são pouco firmes
As ideias inconsistentes
Um frio que vem de dentro
E arrepios me provoca
Nesta manhã quente de Junho.

E não é uma sensação de fracasso
A que o sono me vai roubando:
                                               O que na verdade receio
                                               É que amanhã encare tudo
                                               Com natural insensibilidade!
Não é receio!   É medo!

Reis Caçote


94 - VALSA INVENTADA


Deixa-me esgueirar contigo
Nos acordes desta valsa inventada
Para os jardins de Inverno
Deste palácio de Verão
Que é a noite redonda e calada
Ponteada de diamantes longínquos
Que emitem um nervoso brilho
Neste sussurro de asa de mamífero
E de lábios que suavemente percorrem
A pele queimada
Deixando marcas que se prolongam
Pela madrugada insone
Marcas que acalmam e são
Promessas de outras
Que todos os amanheceres
Insistem em querer apagar!

Reis Caçote


95 - NÃO RENDER


Perder a noção do tempo
É quanto procuro conseguir.
Há quem o faça bebendo
Ou fugindo
Ou morrendo!

Eu
Por enquanto
Ler pintar ou escrever
É quanto me vai bastando
e
espero tão cedo
não me render!

Reis Caçote



96 - DESPINTAR

Libertarei todas as minhas aves-pensamentos
Todos os meus gritos silenciados
Todas as cores singelas
Ou misturadas.

Lançá-los-ei no ar aos ventos
Nos ouvidos impreparados
E nos matizes de alvoradas
E poentes
Meus gestos bruscos ou moderados
Em misturas de branco
                                      Amarelo
                                      Verde
                                      Vermelho
                                      Preto
                                      E todas as outras
Ficarão por algum tempo na tela registados.

Pelo menos o tempo de os olhar
                                               Apreciar e…
Alterar !!!

Reis Caçote


97 – PROMESSA


E daquela ausência de gosto
Pelo que pintei e escrevi
Me fui apercebendo e
Porque a contragosto
Continuar não era capaz
Assim vai tudo esmorecendo
Acompanhado de algum desgosto
Vou enfim voltar à paz !

Prometendo voltar outro dia
Ou outra noite…Verás !

Reis Caçote


98 - ATÉ DO QUE ESCREVI

Para usar de muita franqueza
Penso que nunca gostei
Do que pintei ou desenhei!

E até do que escrevo.

Se em qualquer dos o fiz
Umas vezes era por estar triste
Outras por me sentir feliz.

E aí terá ficado
Um ou mais registos de cada estado
Ou um borrão mal pintado
Ou então
De lapiseira na mão
Em letras de amor ou raiva
Fui registando cada emoção.

Ah!… todas, todas Não!

Reis Caçote



99 - E POR FIM


E por fim
Cansado
De tudo de ti para mim conservar
Verifico com alegria e tristeza
Num mesmo espaço-tempo
Que teu destino
Como o infinito
É ser isso mesmo
                            Albergar tudo
                            O bem e o mal
Infinitamente grande
A prometer sempre
E nunca se dar
                   Para ser livre e diferente ?!

Reis Caçote



               


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