POESIA - 20 POEMAS - AINDA NA LIMPEZA DO BAÚ - 21º UM NACO DE PROSA - 1º POEMA - FRAGMENTO E 20º PARABENS

 

AINDA NA LIMPEZA DO BAÚ



(ARRUMAÇÃO A GRANEL= DESORDEM!)





1 - FRAGMENTO

A todos os que

pelos anos fora

sofrendo

de dentes cerrados na revolta

foram erguendo

pedra a pedra

nas consciências

um castelo!

Reis Caçote

sem data-dig.07/05/18





2 - DAR O QUE TENHO

Todos que conheço merecem

mais e melhor.

Sendo bem pouco e pior

do que gostaria,

darei a todos apenas

o que sou capaz!

Reis Caçote

02/83-dig.05/18





3 - NÃO, PEREMPTÓRIO



Não haverá recusas aceitáveis!

Hás-de

facilmente ou com esforço

transformar-te:

na relha que rasgará toda a terra

onde irão crescer cearas de abundância

e um sorriso nos lábios dos hoje esfomeados!



Na quilha do barco que dará a volta ao Mundo

bem alto, no mastro principal, o pavilhão Universal!

Na fuselagem do avião fendendo o espaço

em direcção ao Sol!

Reis Caçote

sem data-dig.05/18



4 - VIDA MADRASTA

No final da dor

de castiçais laterais

de luz trémula

frágil

como tu

Vida.



Rituais

para alguém que só a homogenia

de cada dia

a preparação da salada de frutas

tinha ritualidade.

O resto era tudo Verdade

mesmo a dor

e teus ais de fim de vida

Madrasta!

Reis Caçote

sem data(elegia em velório) - dig.05/18



5 - DOCENTE DO 1º CICLO

Alinhadas as carteiras

dos alinhados alunos.

Alinhadas as ideias

dos que vão procurar alinhar

os desalinhados

infantis

pensamentos.



Os alinhados alunos

das alinhadas carteiras.

Tu

deusa de bata branca

atirada para a frente

do pelotão ululante dos recreios

do cântico da tabuada

do presente do indicativo

conduzindo para a conjugação

do futuro

a força incontrolável do grupo

que tens de dirigir

e não reprimir.



Não idealizes a altura do teu pedestal!

Ensina e aprende ao mesmo tempo

E assim terás o teu monumento

no pensamento de cada um!

Reis Caçote

sem data-dig.05/18



6 - O DOUTOR...

Por que é, não sei!...

gosto dele!!!

Não sei se por ser Ferreira;

Não sei se por ser doutor;

Não sei se por ser Medeiros!



Por ser doutor, não é, tenho quase a certeza!



Mas por que será, então?!



Será por ser Medeiros Ferreira?

Será por ser ... Medeiros Ferreira e doutor?!



Ou será por não ser: Medeiros Doutor Ferreira?



Sei que não consigo sair desta confusa situação?!



Penso que sim

Tenho para mim que não

Estou em crer que sim que não

Contudo gosto dele!...



Não tanto pelo que diz que faz

Mas, sobretudo, pelo que não diz e faz

Isto devia bastar-me.

Ou será que, tal gosto se deve

pela confusão que me faz

aquele olhar cruzado que

prolongado

me deixa deveras embaraçado?!

nunca percebo se está a olhar para mim

se contra mim!...



Aquela beleza estrábica...confunde-me:

Imagino as imagens a chegar ao nervoso

como num tattoo da GNR:

ai agora passas tu

ai agora passo eu

Será que alguém haverá, que não goste?

Reis Caçote

sem data-dig.05/18



7 - MENTIRA...OU, NEM TANTO

Sinto que pouco a pouco

me vou destruindo e

não o faço

de uma só vez

Faço parte da natureza

e não queria

se possível fosse

que ela tomasse parte no acto.



Pudera eu arranjar forma

de ela deixar de fazer parte integrante

e logo tomaria a decisão

(cobardia ou coragem?)

da minha destruição.



É horrível este pesadelo

de morte

em que não penso a sério

mas para o qual

inevitavelmente

conscientemente

Caminho!

Reis Caçote

sem data-dig.05/18



8 - POETAS DO PAIS VIZINHO...

Os poetas não têm países vizinhos

Os países não são vizinhos dos poetas

Nem sequer estão, os poetas, perto dos países

Nem os países estão perto dos poetas.



Os poetas não têm país

Os países têm poetas

Todos os países!



De que país é, Camões, vizinho?

De que país é vizinho, Neruda?

De que país é vizinho, Fernando Pessoa?

E , Vinícius de Moraes?

Maiakovski, seria vizinho de que país?



Os poetas não têm Países por que

não têm fronteiras!

Os poetas não têm fronteiras

da linguagem poética!

Não cabem em País algum

Os poetas!

Reis Caçote

06/83-dig.05/18





9 - BRISAS DE MAR E NOITE

A brisa do mar na noite

criei.

Teu rosto da Lua, nas paradas águas, caída

Teus olhos de estrelas

as mais brilhantes

poisadas na beira do penhasco

eu apanhei

teus cabelos de algas

fosforescentes

teu corpo de areia e mar

Amanheceu boiando

teu corpo cósmico

sob um manto de espuma

embalado por onda-brisa.

Reis Caçote

09/83-dig.05/18



10 - EXCESSIVO

Entranhadas nas palmas das mãos

e rosto

tenho ainda pedaços de unhas

e de Sol

que o desespero foi cravando

no fundo desta fenda

de horror

em que caí

na busca do vulcão

que me expeliu para a Vida!

Reis Caçote

09/83-dig.05/18



11 - PARABENS...

Logo pela manhã de há um ano

tentou a natureza

de flores brancas enfeitar

teu aniversário. Frio.

Desistiu de imediato.



Este ano, ainda cedo

incendiou o Sol

de luz brilhante. Calor.

A espreitar pelas janelas

de tua sensibilidade.

E não desiste.



Hei-de um dia fazer um poema

que não este que hoje faço

e desfaço.



De parabéns um abraço!

Reis Caçote

01/02/80-dig.05/18



12 - TALVEZ NÃO SEJA...

Talvez não seja eu

aquele que escreve

não o de ontem

sem dor por inconsciência

mas o de hoje por vivência.



O que tem a coragem do esfomeado

a velocidade do perseguido

a visão do necessitado

o ouvido do músico de rua

a "alma" grande do "bem-aventurado"

de mãos vazias.



Sua cama um banco vago de jardim

seu telhado a sombra da noite das ruas

o desesperado de espaço

para escrever hoje

sem o receio e ignorância de ontem

Para amanhã.

Reis Caçote

09/70-dig.05/18



13 - ANIVERSÁRIO



Aniversário

Que nada para ti representa

A não ser o bolo

As velas acesas

Os parabéns e as palmas.



Maravilhosos cinco anos

Em que o chapéu

De larga aba

- à cowboy -

Tudo preenche.



Riso de cristal

corrida vertiginosa

queda provocada

com nódoas negras.



Instabilidade:

de estar

de pensar

de ser.



Reis Caçote

1973/dig.05/18





14 - A BANHA DA COBRA



No largo ao lado

Do papa-estátua

numa voz rouca

de aldrabão-altifalante

soa o pregão:

uma navalha

com duas lâminas em puro aço

com saca-rolhas

abre latas e garrafas

e até uma serra!

Custaria, em qualquer parte

cinquenta escudos!

Os senhores não vão pagar cinquenta

nem quarenta

nem trinta...!

nem mesmo vinte e cinco!...

!...pagarão, apenas, uma nota de vinte!...

Mas, como representamos a fábrica...

...oferecemos ainda...

... (um monte de inutilidades) ...!



Como és fabuloso

aldrabão-de-praça-pública!

E persuasivo!

Vendes um monte de ilusões

que felizes pagamos.

São bem diferentes, embora más

As tuas e nossas ilusões.

Mas bem melhores que outras

que não compramos

e pagamos

bem mais caras!



Reis Caçote

1970/dir.05/18





15 - O HOMEM

Lá, nos confins desregrados

do frio e do calor

chamavam olmos aos choupos.

Era, foi sempre

um olmo de comportamento

físico e moral

Vertical!

Alto

Flexível

mesmo como um olmo

sempre pronto, assaz,

a não contestar:

cultivava a paz.

Todas as manhãs

sem poeta ser

esperava o Sol há horas várias

e no mesmo local do Sol se despedia:

sem lágrimas

pacificamente.



De raízes pouco profundas

este olmo foi meu Pai

Que uma rajada mais forte

de um vento sem norte

(apenas morte)

dobrou definitivamente.



O orvalho só se formava

nas suas folhas

em cada momento de Primavera



Por isso o não choro:

na minha tristeza

Recordo-o!



Reis Caçote

sem data/dig.05/18





16 - DE CINZENTO E SILÊNCIO



A caminho do Céu

passou pela Terra.



Com ele cruzei vezes sem conta:

- vestindo sempre de cinzento escuro

para não ofender Deus!

- abraçando junto ao peito um livro de capa preta

para glorificar Deus!

- respondendo às minhas e outras saudações

com a mudez de um gesto lento de cabeça e lábios

gesto-oração para que sua voz não ofendesse Deus!

- Olhando nunca de frente o seu semelhante

para não ofender Deus com seu olhar!

- sempre desgrenhada sua rala cercadura de cabelos

para que sua vaidade não ofendesse Deus!

- arrastando-se pela vida pesadamente

para com seus grossos sapatos

não ofender Deus omnipresente!



Morreu há dias...lentamente...silenciosamente!

Comprei todos os jornais no dia seguinte na esperança de...

Todos relatavam o regresso à Terra

do vaivém americano!



Reis Caçote

sem data-dig.05/18





17 - DEDICATÓRIA EM LIVRO

(ao dr. A. Correia, nos seus 60 anos)

Serão sempre pequenas as honras prestadas

aos que

recusando-se a apenas interpretar

o mundo

se vão cruzando pelas estradas da liberdade

ou em busca da liberdade

na tarefa gigantesca de o mundo transformar.



Reis Caçote

07/07/83-dig.08/18





18 - PORQUÊ ?



Porque é que os limos não

hão-de dar flores para as poder

espalhar

nos lagos dos

cisnes cor de rosa

enfeitar-lhes as penas

tempestades

e dar folga por uns dias

às escamas dos peixes

vermelhos

sempre expostos no

liquido ecrã

onde me olho

olhando-os

no seu obsessivo vaivém

de encarcerados

que esperam

de rabo pendente

o carcereiro de sopa

de reumatismo

de cerrar dentes?



Reis Caçote

sem data-dig.05/18





19 - ARIDEZ



Árido pensamento

de querer ver um olho aberto

no fundo da noite passada

de insónia!

Árido pensamento

de querer encontrar a força

no fracasso do dia dezoito

que foi domingo!

Árido pensamento

de querer um altar na mentira

do suborno da véspera

do Verão!

Insólito pensamento

o de querer encontrar

o que os outros escondem

de cimento!

Árido e insólito!



Reis Caçote

sem data-dig.05/18





20 - PARABENS



365 dias passaram

não em vão

Não anda ainda

não há pressa

outros dias virão.

Teus olhos vivos

tua Mãe diz que pequenos

isso é que não são

Descobrem sementes no chão

não importa assim o tamanho.

Teu cabelo ondulado

teu rosto suave e belo

teu corpo forte a calmo aspeto

Teu riso franco nas brincadeiras

traz-me as alegrias contidas

nas palavras não faladas.



De hoje a um ano, dois anos tens

PARABENS!



Reis Caçote

2/6/9-dig.05/18






































21 - UM NACO DE PROSA



Em condições normais de estar na vida, não seria necessário dizer ou escrever o quer que fosse.

Nas condições presentes, não bastará o silêncio e nem sequer o dizer que apenas quero e penso que não é mais do que aquilo a que todos temos direito: VIVER!

Sem ambições outras, além das que tenho! Se possível, com o mínimo de dignidade! Se possível, sem violências desnecessárias! VIVER, apenas! A partir do nada, outra vez! A partir do nada as vezes que necessário for, para que a vida o seja um pouco: sem ódios, sem recalcamentos, sem bloqueios: civilizadamente; inteligentemente.

Mas no ponto em que as coisas estão, dramatizadas até ao absurdo, é difícil que a inteligência se sobreponha, dando luz verde a que venha ao de cima, tudo o que de mau ainda forma o ser humano, explorando, cada um à sua maneira, a parte fraca do outro, numa atitude repugnante de desumana chantagem.

Jamais me passou pela mente que alguma vez viesse a ser participante de uma tão grande e complexa rede de desagregação mental. Digo participante e não vitima. Jamais pensei ser possível, nesta época e com este conjunto de pessoas, se deixasse ir tão longe a raiva, de não querer ser o que de facto se é, trucidando tudo e todos os que, pelo caminho, mesmo sem querer, porventura, possam perturbar o andamento dos que querem ser, exatamente o contrário do que de facto são, dos que, de facto, podem ser!

Jamais me ocorreu ser possível que isto viesse a acontecer:

- assanham-se raivas entre familiares, por causa de valores que apenas serviram para encobrir, mal, o que de facto cada um é e devia ter alegria em ser;

- suga-se, em nome de uma diferença, que outra coisa não é que a prepotência dos frustrados, dos preguiçosos, a sensibilidade dos outros, fingindo-se vitimas de tudo o que os rodeia, mentindo até à exaustão, atentando contra a integridade física, ameaçando de suicídio, para fugir à responsabilidade mínima que a vida impõe, chamando a si todos os direitos e rejeitando qualquer tipo de deveres, como se o mundo que os cerca tenha sido feito, apenas para que eles tenham só prazeres e os outros sofrimento;

- aceita-se, em nome de não sei que deus ou que principio moral ou cívico, que um membro do grupo, só por que nunca se quis ajustar a padrões de vida que sempre rejeitou, seja mantido como que numa jaula, feita de uma construção abstrusa de conceitos, ridículos e sem fundamento, dramatizados até ao limite, em vez de se lhe reconhecer o direito de se poder libertar e, assim, deixar que cada um do grupo aja como quiser, sem que o outro tenha que assistir a uma peça que lhe não agrada, violentando-se a cada momento; sendo vitima da conjuntura, só por que entende que não tem de proceder, como outros procederam, voltando as costas ao que rejeita, só por que quer ter em cada igual um amigo e por maioria de razão procurou sê-lo dos que lhe são mais próximos.

Não era este o apontamento que queria construir, mas o estado de cansaço, de revolta, de incapacidade de entender a conjuntura, não fui capaz de produzir outro.

O tempo acabará por repor tudo no seu lugar; cada um há-de compreender que o ódio "cega" as pessoas e as leva a atitudes de vingança que, a curto prazo, lhes vão impor o arrependimento

Esperamos que não seja demasiado tarde.

Nada mais consigo alinhavar hoje. Gostaria de continuar a dizer

"que nunca me arrependi do que fiz"

Em forma de nota final:

Considero ser uma lástima que se chegue a este patamar! Só a necessidade de dizer o que penso, me impeliu para mais este desabafo, mesmo sabendo que é chover no molhado.

Um engenheiro cá da casa, em momento de inspiração "filosófica" que sempre lhe acodem quando está à rasca, diz que a falta de resposta é uma forma de responder. Não concordo com a teoria e muito menos com a prática, nele ou outra pessoa. Mas tenho que aceitar, por muito ou pouco que me custe.

Sem grande mudança de tema:

A necessidade de mudar o tipo de vida que hoje tenho e que é, uma vez mais, partindo da estaca zero, tem a ver com a luta tenaz que interiormente vou travando, no sentido de à vida dar algum sentido.

Viver, afinal, que não é o mesmo que respirar, é o que eu exijo e luto para conseguir.



Reis Caçote

sem data-dig.05/18
































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