POESIA - AINDA NA LIMPEZA DO BAÚ: 20 POEMAS +1PEQUENO NACO DE PROSA
AINDA NA LIMPEZA DO BAÚ
(ARRUMAÇÃO A GRANEL= DESORDEM!)
1 - FRAGMENTO
A todos os que
pelos anos fora
sofrendo
de dentes cerrados na revolta
foram erguendo
pedra a pedra
nas consciências
um castelo!
Reis Caçote
sem data-dig.07/05/18
2 - DAR O QUE TENHO
Todos que conheço merecem
mais e melhor.
Sendo bem pouco e pior
do que gostaria,
darei a todos apenas
o que sou capaz!
Reis Caçote
02/83-dig.05/18
3 - NÃO, PEREMPTÓRIO
Não haverá recusas aceitáveis!
Hás-de
facilmente ou com esforço
transformar-te:
na relha que rasgará toda a terra
onde irão crescer cearas de abundância
e um sorriso nos lábios dos hoje esfomeados!
Na quilha do barco que dará a volta ao Mundo
bem alto, no mastro principal, o pavilhão Universal!
Na fuselagem do avião fendendo o espaço
em direcção ao Sol!
Reis Caçote
sem data-dig.05/18
4 - VIDA MADRASTA
No final da dor
de castiçais laterais
de luz trémula
frágil
como tu
Vida.
Rituais
para alguém que só a homogenia
de cada dia
a preparação da salada de frutas
tinha ritualidade.
O resto era tudo Verdade
mesmo a dor
e teus ais de fim de vida
Madrasta!
Reis Caçote
sem data(elegia em velório) - dig.05/18
5 - DOCENTE DO 1º CICLO
Alinhadas as carteiras
dos alinhados alunos.
Alinhadas as ideias
dos que vão procurar alinhar
os desalinhados
infantis
pensamentos.
Os alinhados alunos
das alinhadas carteiras.
Tu
deusa de bata branca
atirada para a frente
do pelotão ululante dos recreios
do cântico da tabuada
do presente do indicativo
conduzindo para a conjugação
do futuro
a força incontrolável do grupo
que tens de dirigir
e não reprimir.
Não idealizes a altura do teu pedestal!
Ensina e aprende ao mesmo tempo
E assim terás o teu monumento
no pensamento de cada um!
Reis Caçote
sem data-dig.05/18
6 - O DOUTOR...
Por que é, não sei!...
gosto dele!!!
Não sei se por ser Ferreira;
Não sei se por ser doutor;
Não sei se por ser Medeiros!
Por ser doutor, não é, tenho quase a certeza!
Mas por que será, então?!
Será por ser Medeiros Ferreira?
Será por ser ... Medeiros Ferreira e doutor?!
Ou será por não ser: Medeiros Doutor Ferreira?
Sei que não consigo sair desta confusa situação?!
Penso que sim
Tenho para mim que não
Estou em crer que sim que não
Contudo gosto dele!...
Não tanto pelo que diz que faz
Mas, sobretudo, pelo que não diz e faz
Isto devia bastar-me.
Ou será que, tal gosto se deve
pela confusão que me faz
aquele olhar cruzado que
prolongado
me deixa deveras embaraçado?!
nunca percebo se está a olhar para mim
se contra mim!...
Aquela beleza estrábica...confunde-me:
Imagino as imagens a chegar ao nervoso
como num tattoo da GNR:
ai agora passas tu
ai agora passo eu
Será que alguém haverá, que não goste?
Reis Caçote
sem data-dig.05/18
7 - MENTIRA...OU, NEM TANTO
Sinto que pouco a pouco
me vou destruindo e
não o faço
de uma só vez
Faço parte da natureza
e não queria
se possível fosse
que ela tomasse parte no acto.
Pudera eu arranjar forma
de ela deixar de fazer parte integrante
e logo tomaria a decisão
(cobardia ou coragem?)
da minha destruição.
É horrível este pesadelo
de morte
em que não penso a sério
mas para o qual
inevitavelmente
conscientemente
Caminho!
Reis Caçote
sem data-dig.05/18
8 - POETAS DO PAIS VIZINHO...
Os poetas não têm países vizinhos
Os países não são vizinhos dos poetas
Nem sequer estão, os poetas, perto dos países
Nem os países estão perto dos poetas.
Os poetas não têm país
Os países têm poetas
Todos os países!
De que país é, Camões, vizinho?
De que país é vizinho, Neruda?
De que país é vizinho, Fernando Pessoa?
E , Vinícius de Moraes?
Maiakovski, seria vizinho de que país?
Os poetas não têm Países por que
não têm fronteiras!
Os poetas não têm fronteiras
da linguagem poética!
Não cabem em País algum
Os poetas!
Reis Caçote
06/83-dig.05/18
9 - BRISAS DE MAR E NOITE
A brisa do mar na noite
criei.
Teu rosto da Lua, nas paradas águas, caída
Teus olhos de estrelas
as mais brilhantes
poisadas na beira do penhasco
eu apanhei
teus cabelos de algas
fosforescentes
teu corpo de areia e mar
Amanheceu boiando
teu corpo cósmico
sob um manto de espuma
embalado por onda-brisa.
Reis Caçote
09/83-dig.05/18
10 - EXCESSIVO
Entranhadas nas palmas das mãos
e rosto
tenho ainda pedaços de unhas
e de Sol
que o desespero foi cravando
no fundo desta fenda
de horror
em que caí
na busca do vulcão
que me expeliu para a Vida!
Reis Caçote
09/83-dig.05/18
11 - PARABENS...
Logo pela manhã de há um ano
tentou a natureza
de flores brancas enfeitar
teu aniversário. Frio.
Desistiu de imediato.
Este ano, ainda cedo
incendiou o Sol
de luz brilhante. Calor.
A espreitar pelas janelas
de tua sensibilidade.
E não desiste.
Hei-de um dia fazer um poema
que não este que hoje faço
e desfaço.
De parabéns um abraço!
Reis Caçote
01/02/80-dig.05/18
12 - TALVEZ NÃO SEJA...
Talvez não seja eu
aquele que escreve
não o de ontem
sem dor por inconsciência
mas o de hoje por vivência.
O que tem a coragem do esfomeado
a velocidade do perseguido
a visão do necessitado
o ouvido do músico de rua
a "alma" grande do "bem-aventurado"
de mãos vazias.
Sua cama um banco vago de jardim
seu telhado a sombra da noite das ruas
o desesperado de espaço
para escrever hoje
sem o receio e ignorância de ontem
Para amanhã.
Reis Caçote
09/70-dig.05/18
13 - ANIVERSÁRIO
Aniversário
Que nada para ti representa
A não ser o bolo
As velas acesas
Os parabéns e as palmas.
Maravilhosos cinco anos
Em que o chapéu
De larga aba
- à cowboy -
Tudo preenche.
Riso de cristal
corrida vertiginosa
queda provocada
com nódoas negras.
Instabilidade:
de estar
de pensar
de ser.
Reis Caçote
1973/dig.05/18
14 - A BANHA DA COBRA
No largo ao lado
Do papa-estátua
numa voz rouca
de aldrabão-altifalante
soa o pregão:
uma navalha
com duas lâminas em puro aço
com saca-rolhas
abre latas e garrafas
e até uma serra!
Custaria, em qualquer parte
cinquenta escudos!
Os senhores não vão pagar cinquenta
nem quarenta
nem trinta...!
nem mesmo vinte e cinco!...
!...pagarão, apenas, uma nota de vinte!...
Mas, como representamos a fábrica...
...oferecemos ainda...
... (um monte de inutilidades) ...!
Como és fabuloso
aldrabão-de-praça-pública!
E persuasivo!
Vendes um monte de ilusões
que felizes pagamos.
São bem diferentes, embora más
As tuas e nossas ilusões.
Mas bem melhores que outras
que não compramos
e pagamos
bem mais caras!
Reis Caçote
1970/dir.05/18
15 - O HOMEM
Lá, nos confins desregrados
do frio e do calor
chamavam olmos aos choupos.
Era, foi sempre
um olmo de comportamento
físico e moral
Vertical!
Alto
Flexível
mesmo como um olmo
sempre pronto, assaz,
a não contestar:
cultivava a paz.
Todas as manhãs
sem poeta ser
esperava o Sol há horas várias
e no mesmo local do Sol se despedia:
sem lágrimas
pacificamente.
De raízes pouco profundas
este olmo foi meu Pai
Que uma rajada mais forte
de um vento sem norte
(apenas morte)
dobrou definitivamente.
O orvalho só se formava
nas suas folhas
em cada momento de Primavera
Por isso o não choro:
na minha tristeza
Recordo-o!
Reis Caçote
sem data/dig.05/18
16 - DE CINZENTO E SILÊNCIO
A caminho do Céu
passou pela Terra.
Com ele cruzei vezes sem conta:
- vestindo sempre de cinzento escuro
para não ofender Deus!
- abraçando junto ao peito um livro de capa preta
para glorificar Deus!
- respondendo às minhas e outras saudações
com a mudez de um gesto lento de cabeça e lábios
gesto-oração para que sua voz não ofendesse Deus!
- Olhando nunca de frente o seu semelhante
para não ofender Deus com seu olhar!
- sempre desgrenhada sua rala cercadura de cabelos
para que sua vaidade não ofendesse Deus!
- arrastando-se pela vida pesadamente
para com seus grossos sapatos
não ofender Deus omnipresente!
Morreu há dias...lentamente...silenciosamente!
Comprei todos os jornais no dia seguinte na esperança de...
Todos relatavam o regresso à Terra
do vaivém americano!
Reis Caçote
sem data-dig.05/18
17 - DEDICATÓRIA EM LIVRO
(ao dr. A. Correia, nos seus 60 anos)
Serão sempre pequenas as honras prestadas
aos que
recusando-se a apenas interpretar
o mundo
se vão cruzando pelas estradas da liberdade
ou em busca da liberdade
na tarefa gigantesca de o mundo transformar.
Reis Caçote
07/07/83-dig.08/18
18 - PORQUÊ ?
Porque é que os limos não
hão-de dar flores para as poder
espalhar
nos lagos dos
cisnes cor de rosa
enfeitar-lhes as penas
tempestades
e dar folga por uns dias
às escamas dos peixes
vermelhos
sempre expostos no
liquido ecrã
onde me olho
olhando-os
no seu obsessivo vaivém
de encarcerados
que esperam
de rabo pendente
o carcereiro de sopa
de reumatismo
de cerrar dentes?
Reis Caçote
sem data-dig.05/18
19 - ARIDEZ
Árido pensamento
de querer ver um olho aberto
no fundo da noite passada
de insónia!
Árido pensamento
de querer encontrar a força
no fracasso do dia dezoito
que foi domingo!
Árido pensamento
de querer um altar na mentira
do suborno da véspera
do Verão!
Insólito pensamento
o de querer encontrar
o que os outros escondem
de cimento!
Árido e insólito!
Reis Caçote
sem data-dig.05/18
20 - PARABENS
365 dias passaram
não em vão
Não anda ainda
não há pressa
outros dias virão.
Teus olhos vivos
tua Mãe diz que pequenos
isso é que não são
Descobrem sementes no chão
não importa assim o tamanho.
Teu cabelo ondulado
teu rosto suave e belo
teu corpo forte a calmo aspeto
Teu riso franco nas brincadeiras
traz-me as alegrias contidas
nas palavras não faladas.
De hoje a um ano, dois anos tens
PARABENS!
Reis Caçote
2/6/9-dig.05/18
21 - UM NACO DE PROSA
Em condições normais de estar na vida, não seria necessário dizer ou escrever o quer que fosse.
Nas condições presentes, não bastará o silêncio e nem sequer o dizer que apenas quero e penso que não é mais do que aquilo a que todos temos direito: VIVER!
Sem ambições outras, além das que tenho! Se possível, com o mínimo de dignidade! Se possível, sem violências desnecessárias! VIVER, apenas! A partir do nada, outra vez! A partir do nada as vezes que necessário for, para que a vida o seja um pouco: sem ódios, sem recalcamentos, sem bloqueios: civilizadamente; inteligentemente.
Mas no ponto em que as coisas estão, dramatizadas até ao absurdo, é difícil que a inteligência se sobreponha, dando luz verde a que venha ao de cima, tudo o que de mau ainda forma o ser humano, explorando, cada um à sua maneira, a parte fraca do outro, numa atitude repugnante de desumana chantagem.
Jamais me passou pela mente que alguma vez viesse a ser participante de uma tão grande e complexa rede de desagregação mental. Digo participante e não vitima. Jamais pensei ser possível, nesta época e com este conjunto de pessoas, se deixasse ir tão longe a raiva, de não querer ser o que de facto se é, trucidando tudo e todos os que, pelo caminho, mesmo sem querer, porventura, possam perturbar o andamento dos que querem ser, exatamente o contrário do que de facto são, dos que, de facto, podem ser!
Jamais me ocorreu ser possível que isto viesse a acontecer:
- assanham-se raivas entre familiares, por causa de valores que apenas serviram para encobrir, mal, o que de facto cada um é e devia ter alegria em ser;
- suga-se, em nome de uma diferença, que outra coisa não é que a prepotência dos frustrados, dos preguiçosos, a sensibilidade dos outros, fingindo-se vitimas de tudo o que os rodeia, mentindo até à exaustão, atentando contra a integridade física, ameaçando de suicídio, para fugir à responsabilidade mínima que a vida impõe, chamando a si todos os direitos e rejeitando qualquer tipo de deveres, como se o mundo que os cerca tenha sido feito, apenas para que eles tenham só prazeres e os outros sofrimento;
- aceita-se, em nome de não sei que deus ou que principio moral ou cívico, que um membro do grupo, só por que nunca se quis ajustar a padrões de vida que sempre rejeitou, seja mantido como que numa jaula, feita de uma construção abstrusa de conceitos, ridículos e sem fundamento, dramatizados até ao limite, em vez de se lhe reconhecer o direito de se poder libertar e, assim, deixar que cada um do grupo aja como quiser, sem que o outro tenha que assistir a uma peça que lhe não agrada, violentando-se a cada momento; sendo vitima da conjuntura, só por que entende que não tem de proceder, como outros procederam, voltando as costas ao que rejeita, só por que quer ter em cada igual um amigo e por maioria de razão procurou sê-lo dos que lhe são mais próximos.
Não era este o apontamento que queria construir, mas o estado de cansaço, de revolta, de incapacidade de entender a conjuntura, não fui capaz de produzir outro.
O tempo acabará por repor tudo no seu lugar; cada um há-de compreender que o ódio "cega" as pessoas e as leva a atitudes de vingança que, a curto prazo, lhes vão impor o arrependimento
Esperamos que não seja demasiado tarde.
Nada mais consigo alinhavar hoje. Gostaria de continuar a dizer
"que nunca me arrependi do que fiz"
Em forma de nota final:
Considero ser uma lástima que se chegue a este patamar! Só a necessidade de dizer o que penso, me impeliu para mais este desabafo, mesmo sabendo que é chover no molhado.
Um engenheiro cá da casa, em momento de inspiração "filosófica" que sempre lhe acodem quando está à rasca, diz que a falta de resposta é uma forma de responder. Não concordo com a teoria e muito menos com a prática, nele ou outra pessoa. Mas tenho que aceitar, por muito ou pouco que me custe.
Sem grande mudança de tema:
A necessidade de mudar o tipo de vida que hoje tenho e que é, uma vez mais, partindo da estaca zero, tem a ver com a luta tenaz que interiormente vou travando, no sentido de à vida dar algum sentido.
Viver, afinal, que não é o mesmo que respirar, é o que eu exijo e luto para conseguir.
Reis Caçote
sem
data-dig.05/18






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