POESIA - PERDIDOS E ACHADOS (INÉDITOS) - SÃO 15 POEMAS
( PERDIDOS E ACHADOS INÉDITOS)
POEMAS DE VÁRIAS “IDADES” e TEMAS
1 - NOITE DE REVEILLON
Numa infinidade de locais
Artificial e materialmente
Iluminados
Uma quantidade enorme
De burgueses
Aguardam:
Que um velho relógio
Sempre certinho
Burguês também
Bata as doze badaladas
Nesta noite de Dezembro
Trinta e um.
Numa infinidade de outros locais
Uma multidão enorme
também
Sem luz artificial
Na noite
Aguarda, tremendo
Não as doze badaladas
Do velho relógio
Mas a próxima explosão
Uma dúzia de explosões
Mais alegres que
Dançam
À meia noite
Se embebedam
À meia noite
Fazem barulho
À meia noite
Desejam-se felicidades
À meia noite
Lançam foguetes
À meia noite
Abraçam-se
À meia noite
Partem copos
À meia noite
Para os outros
Essa alegria
Essas manifestações
Surgem logo em seguida
À explosão
Em que não foram atingidos!
Reis Caçote
31/12/72 – dig. 1/3/018-Fb.05/03/018
2 – ININTEGRAÇÃO
Corro
Há quilómetros
Atrás da minha sombra
Projetada no chão
À minha frente
Pelo carreiro de cabras
Que vai dar à serra
Estreito, como desejo
Mesmo de pedras juncado.
Fujo da confusão da cidade
Do ruído da cidade
Do mau cheiro da cidade
Dos fatos novos da cidade
Dos habitantes da cidade
Da massa heterogénea da cidade
Da prostituição da cidade.
Sinto que não sou
Da cidade
Dentro dela me sinto só
Sinto um frio intenso dentro
Da cidade
Um frio interior
Bolorento.
Quero encontrar-me outra vez
Longe do ruido
Do frio
Do bolor
Preciso reintegrar-me.
Reis Caçote
Junho/70-dig.02/018
3 – NOITE FRIA
Este frio intenso
Que sai dos ossos
Do ventre da noite
De rafeiro uivando
Aos outros.
Pensa mais no frio dos outros
Rafeiros da noite sem nome
Familiar
Que de frio nem uivam
Para quê uivar ?
O seu frio não é o deles
Ele tem um nome
Que o aquece
Um nome abrigo
Mas não tem uma noite a sua
Noite de rafeiro sem nome...
Reis
Caçote
1970/14
4 – FALOU-SE EM...
Falou-se em revolução e
De imediato
Em emancipação.
De acordo, certamente
Já que não poderá haver
Uma sem a outra!
Mas por qual começar
Ou a revolução sucedera
Com a emancipação?
E que género de emancipação?
E não será também liberdade?
E independência?
Do homem? Da mulher?
Independência económica?
Independência de pensamento?
Independência sexual?
Ou será a independência da liberdade?
Aquela que conduzirá até ao extremo:
“Quanto mais culto, mais livre”
Ou será a liberdade de a tudo dizer não?
Ou de vestir roupa diferente e dizer-se independente?
Ou distribuir sexo em cada canto e
Gritando-se independente é
Uma dependência gritante?
Ou a linguagem imoderada, dizendo-se emancipada?
Se for isto e não outra ordem de coisas direi não
A tal tipo de emancipação
Chamando-lhe antes: burguesa desagregação.
Só acreditarei em emancipação pura
Quando baseada na cultura,
Não na cultura de castração de pensamento
Antes a da emancipação do pensamento
Para que a emancipação que queremos
Não seja a que a burguesia nos dita
Em cada dia.
Reis Caçote
5 - ANIVERSÁRIO
Aniversário que
Nada para ti representa
A não ser o bolo
As velas acesas
Os parabéns a você.
Maravilhosos 5 anos
Em que o chapéu
De larga aba
- à cowboy –
Tudo preenche.
Riso de cristal
Corrida vertiginosa
Queda provocada
Com nódoas negras
Instabilidade
De estar
De pensar
De ser.
Reis Caçote
2/7/73 dig.04/03/018
6 - POBREZA
Não agradeço quando aceito
Já me basta saber
Para tortura minha
O reconhecimento
Pelos outros
Da minha necessidade.
Talvez por isso
Raras vezes peço
E sempre com pouca
Humildade
Mesmo no pedir há
Um certo orgulho
Apoiado na certeza
Da capacidade
De liquidar
Com honra
Tudo o que é material.
A parte espiritual já
A considero
Desde logo saldada
No momento de pedir
Por que creio ainda na
Verticalidade do Eu
Do que empresta!
Reis Caçote
1970/dig.04/03/017
7 - SINTRA
Hei-de subir
Garanto que subirei
Os carreiros sinuosos
Que vão da Vila ao palácio
De mão dada contigo!
Reis Caçote
1970/dig.04/03/018
8 - MESMO A TEMPO
Cheguei ao alto da colina
Mesmo a tempo
De o último raio de Sol
Segurar na minha mão
Que fechei
Durante a noite
E pelo cedo da manhã
Ainda o dia não desperto
A colocarei
Na alvorada dos teus olhos!
Reis Caçote
1971/dig,04/03/018
9 - PROCURAVA-TE...
Procurava-te
Numa busca em vão parecida.
No local de trabalho
No convívio com conhecidos
- não emprego o termo amigos –
Na aulas frequentadas
Na rua mesmo
Não te encontrava
E já desesperava!
Hora de almoço no café:
Os empregado, servindo
Os talhantes não abatendo suas rezes
Os bancários não fazendo transações
Os vendedores de carros a tentarem vender
Os escriturários esquecidos das suas escritas
Os funcionários públicos à espera de aumento
Os vendedores de feira a aguardar outro dia
Os ardinas à espera doe jornais da tarde
Os sem emprego da bolsa, meditando
Os entusiastas do futebol que não meditam
Os criadores de gado de ventre oponente
O industrial prepotente
O politico subserviente
O pedinte que chega diligente
O vendedor de lotaria descrente
O abandonado numa mesa ausente
Eu a olhar todos de frente
E a procurar no conjunto
A forma possível duma democracia
Fora da hora do almoço!
Reis Caçote
04/1974/dig.04/03/018
(suporte do manuscrito: o verso do recibo, dactilografado, dos 15 dias do mês de Março, que ainda trabalhei na Valverde; no dia seguinte iniciei a experiência da radiologia e nas Caldas da Rainha o general Spínola deu o seu primeiro show, de monoculado)
10 - CONFESSO
Confesso
Que seria grande a desilusão se
A caminhada que se avizinha e
Que enfrentarei de
Olhos postos no Futuro
Se resumisse a uma só etapa
Que falhou!
Não é isso que sucede
Nem sequer a considero falhada.
O que era necessário preservar
E importante
Mantém-se intacta
Valorizada
Pela nova forma de valor introduzida
como valor de confiança
Que viva a amizade, mesmo que doendo!
Reis Caçote
Junho/84-dig.04/03/017
11 - PERSEGUINDO A...
É isso mesmo!
Terei que ser eu a trovoada
Se necessário for!
Hei-de perseguir a felicidade
Tal como persigo a verdade
Como persigo a liberdade
A dignidade
Coletivamente coletiva!
Mesmo que para isso
Frustrado
Tenha que inverter o rumo da
Caminhada e
Ter que ser eu a TROVOADA!
Reis Caçote
Junho/84- dig.04/03/018
12 - MUDAR TUDO
Se os mares são
Dos olhos sofrimento
É urgente mudar
Tudo.
Os continentes
Arriscam-se
Rapidamente a ser
De lágrimas submersos.
Reis Caçote
Julho/84-dig.04/03/018-fb.04/03/18
13 - INSISTINDO
Insisto
Em olhar-te bem os olhos
Através dos cristais
Não lapidados
De lágrimas
Nos meus olhos afundados.
Insisto
De olhos de lágrimas baços
E de cansaço
Na busca desesperada
Dos meus lápis de cera
Para as contornar
- as lágrimas
De cor
Num breve traço.
Que cor tomarão
As minha lágrimas
Incolores?!
Reis Caçote
Julho/84-dig.94/03/018
14 - UMA ADMINISTRAÇÃO-C.T.
É sempre preocupante
Para nós
Quando uma administração
Se apresenta como
Comissão liquidatária
Como é o caso
Em que a acionista principal
Por ser uma Sociedade Financeira
Não ter vocação para administrar empresas
Indemnizando os trabalhadores
E encerrando a empresa!
José Monteiro
1985/dig,04/03/18
15 - EM BUSCA DUMA VERDADE
Mais uma tarde inteira corri
Pela tempestade de poentes
De doirar lágrimas
Na vã esperança de encontrar-te
Nua
Em qualquer parte: Verdade.
Voltei
Tarde já
Pelo mesmo caminho
De látego marginal
Procurando correr de cansaço
Atrás de mim
Com a certeza de voltar
Amanhã
Com os pés nus
Sobre as papoilas de lábios
Rosados
Também descrentes
Como eu
De encontrar-te!
Reis Caçote






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