LUANDA DE 61/63



PELA NEGATIVA POESIA


9 - LUANDA NÃO PODERÁ SER

Luanda…

 Não poderá ser
A violência instituída
Na ponta do cassetete
A macerar a carapinha
De álcool e de ultraje
Excedida!

Não poderá ser a violação sistemática
Dos saculares hábitos nativos
Nesta vertigem de vida fardada
Artificialmente imposta!

Não poderá ser nunca a débil compreensão
Resultante de um fugaz olhar
Insistindo em convencer-se da leitura
Dos insondáveis mistérios austrais!

Não   não  poderá ser isso !

A Luanda verdadeira
Gravada a fogo nas vísceras da sensibilidade
Dos inaptos desenraizados!

Terá que ser outra bem diferente…

Mas também
                            Aquele afago fresco e húmido
                            De lábios de onda
                            A desmaiar de prazer
                            Nos contornos suaves e quentes
                            Da Samba…
Aquele abraço de volúpia
De verde-azul das águas mansas e tépidas
No corpo arrepiado de anões coqueiros
Da sonolenta Mussulo !
                            Aquela eterna e transparente vaidade
                            Debruçada sobre o espelho da baía dia e noite
                            Numa compreensível contemplação
                            De sua tropical beleza!

Aquele aroma forte na cintura
De suor e terra dos musseques
Como vingança e denúncia
De provisórios escorraçados

                            Aquele desafio lascivo de ancas
                            Para olhos de outras latitudes
                            E que crianças e velhos negam naturalmente
                            No ritmo-reflexo do merengue colectivo!

Aqueles olhos de criança grande
A que a vida ofereceu como modo
Uma caixa de engraxar
Com a qual ele brinca ludicamente
Na invenção do batuque ao domicílio!

                            Aquele pequeno exército operário
                            De armas-maços em punho
                            Ao som de uma lengalenga de timoneiro
                            Inventaram uma forma colectiva de bater calçada!

Aquela safada oferta que é procura
Contida na insensível abordagem que é convite
                            - qué mulher?
                            - é só cinquenta angolar!

Aquela voz de estranhos cambiantes
Do ardina a apregoar
O Noticias e o AbC
Que num quadrado da primeira página
No canto superior direito anunciava:
         “ Este jornal publica-se na capital da provincia na tarde da véspera
          Da data do cabeçalho”

Luanda também foi isto!

Reis Caçote
1980/dg.01/14







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