POESIA DIVERSA



QUEM CONHECE O ALENTEJO...



                      


                                 INICIALMENTE FOI DADO AO GRUPO QUE SEGUEA DESIGNAÇÃO DE
                        INCURSÕES NA PLANICIE



I – POEMA

Cai a noite
                   Sobre as pálpebras cerradas
                   Dos olhos que a abrir se começam
                   De néon da cidade…
Iguais sempre   
                   A noite
                   Os olhos de néon
                   A cidade
Ausente aquilo que os tornariam diferentes…

E teus dias são apenas
A antecipação das noites
Só variando com as condições meteorológicas
E as paisagens que são diversas
E a televisão que da planície quase nada transmite.

Não trazem sonhos leves
Os teus sonhos agitados
Só pesadelos.

De dedos de mãos crispados
Nos cabelos em desalinho
E um grito que se não ouve
Mas se adivinha
E que na minha noite insone
A teu lado se perde !

A:Reis Caçote
03/1985


II – POEMA
O teu grito
Uivo de solidão
Va juntar-se a outros
… tantos !
Gritando pela mesma ou
Outra razão
Ecoando    ecoando    ecoando
Por montes e vales
Transportados nas asas do vento
Ou se arrastando pelo chão.

Da serra para a planície
Da planície para a serra
Tantas vezes em vão !

Recuso-me a servir de carcereiro
De teu grito de liberdade !

A:Reis Caçote
03/1985


III – POEMA

Sobre a planície paira rouco
Teu grito de dor
Aguia exausta !

Sobre a planície em chamas
De Sol ateadas,
Ardendo em baixo…
Teu voo circular
Cada vez mais lento
águia cansada!

Teu pescoço já pendendo
Fitando o chão
Águia solitária
Que não busca a presa !

Como vais tu águia exausta
Das alturas do teu grito
Libertar o companheiro preso
Nas malhas da armadilha
Que implacável espera
Tua rendição ?!

Não deixes cegar teus olhos de mar
Águia só
Da planície prisioneira !

A: Reis Caçote
03/1985


IV – POEMA

Teus olhos de bera-mar
E de águas transparências
Perderam a magia das ondas
Vazados no chão de fogo
Da planície .

Teu apelo de regresso
Não encontrará eco nunca mais

Deusa da mágica planície
Prisioneira  !

A: Reis Caçote
03/1985


V – POEMA

Já com os pés em sangue
Na estrada escaldante
Persegues a tua sombra
Alongada agora
Com teus passos de pesadelo,,,

Da planície sabes apenas
Um reflexo de beira-mar
Pincelada breve de sombra
No desértico quadro total
Cuja caminhada iniciaste
E que deves terminar.

A: Reis Caçote
03/1985


VI – POEMA

Tentas em vão
Encontrar
Para as lágrimas ausentes
Uma razão ?

Secaram ? !

Se calhar definitivamente !

E por que não ?

Á assim impiedoso
Para os forasteiros
Este vento suão !

A: Reis Caçote
 03/1985

VII – POEMA

Onde estará
A esta hora de Sol poente
O companheiro desta solitária cegonha ?

Longe já
Muito longe !

Nenhum deles saberá quanto !

A: Reis Caçote
 03/1985


VIII – POEMA

Os lábios de terra da charca
Gretaram !

Ontem eram ainda lama
Com duas ou três rãs a saltarem.

Se os lábios gretados sangraram
O Sol terá depressa secado as chagas
E o sangue pulverizou
Pela planície.
E as rãs dão agora
Em direcção à eternidade
O seu último salto !

A: Reis Caçote
 03/1985


IX – POEMA

Vai la adiante uma sombra
Coberta por branco véu…?!

Neste reflexo da planície
Em chamas de Sol
Já nem sei se é sombra
                            Se sou eu !

A: Reis Caçote
 03/1985



X – POEMA

Sob o Sol em fogo
Da imensidão plana
Desejava mais poder
Aqui imaginar
                   O verde
                   As gaivotas
O mar !

A: Reis Caçote
 03/1985


XI – POEMA

Mas será que ainda existem
Gaivotas no mar ?

Ou este olho de ciclope as afogou
Para de seguida as secar ?!...

A: Reis Caçote
 03/1985


XII – POEMA

Porquê de repente
Este silêncio
Que
Com o Sol a pique
Caíu sobre a planície ?

Nem aquela cigarra
Que a “cantar “ naquela sombra de ramo
Parecia de loucura
 Aumentar a planície
Agora eu oiço !

E este meu grito
Que na garganta morreu
Porque o não oiço eu ?

O que irá de mim restar
No final desta peregrinação
Ao santuário da planície

De cujo deus é o Sol ?!

A: Reis Caçote
03/1985


XIII – POEMA

E agora
Da planície
Cantares mágicos
Como irei ouvir-vos ?

Só me resta regressar
Sobre os meus passos
                            Que não oiço
                            Que não vejo    
                            Que não sinto…
Passos trágicos !

A: Reis Caçote
 03/1985


XIV – POEMA

E cá ao longe
À beira mar
                   E ao vento
Sem tudo o que perdi
                   A procurar-te
Hei-de inventar-te
Planície :
                   Quente
                   Melancólica
                   Mágica
                   Sempre cantando
Ao ritmo do pensamento
E das ondas !

A: Reis Caçote
 03/1985

XV – POEMA

As lágrimas que não correm
                            Hão-de secar.

Quando sob o sol de Verão
Da planície
Eu transformar em nuvens
O rebanho acarrado sob o chaparro
E à pele queimada do pastor
Eu transmitir uma brisa fresca
                            De Mar !

A: Reis Caçote
 03/1985


XVI – POEMA

Ah, como é diferente
Em Março
Sentado à mesa de um café
Do litoral
Inventar a planície
Inundá-la de sol
Percorrê-la de pés nús
Pelos asfaltos e restolhos !

As debulhadores engolindo
O mar domado de espigas
E as nuvens de terra
Dos caminhos
A poisar sobre os rostos queimados
E dos tratores.

Não !

Em Março devia
Da planície contar
O sono húmido
E acordar dentro dum mar verde

Ainda à espera do Sol !!

A: Reis Caçote
 03/1985












        




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