POESIA DA GUERRA
PARA ANGOLA, DEPRESSA E EM FORÇA
13º POEMA
PLANO GORADO NO DESCANSO
Todos os homens da secção tinham feito já sua
folga
Porque a guerra também tem folgas.
Hoje era o meu dia.
E esta perspectiva de poder dormir umas horas
Mesmo que apenas nos intervalos dos obuses
Conseguia sobrepor-se na qualidade e desejo
À outra de viajar para Luanda
Acompanhando uma coluna de três viaturas
Onde podia afogar-me num desejado e necessário
duche
Cortar a barba e arejar as borbulhas
Agitadas e irritantes
Beber uma ou várias cervejas
Encher mais um ou dois capacetes de cigarros a
granel
Que na fábrica nos ofereciam
Dar uma escapadela à pressa ao Bracarense
E dar um abraço aos amigos.
Plano delineado havia que preparar para dormir
Enchi o balde de lona e o pendurava
Com a experiência da primeira vez
Na barra que atravessava o cubículo também de
lona
Montado ao cimo da encosta nascente
Atapetada de tomateiros e tomates
pouco
maiores que cerejas
ridiculamente
pequenos
ridiculamente
rastejantes
Perante a magnifica beleza da serra em frente
Que nos transformava em pequenos seres
E tornava ridícula esta guerra
Com duches improvisados
Com
guerreiros improvisados
Com
medos improvisados
Dolorosamente
reais.
E mal entrei:
Vestindo
a cretina timidez fardada
Receando
ofender algum curioso olhar
Que
não existia na Kibaba
Despejou-se-me sobre a roupa
Coberta
de suor e terra vermelha
A mísera quantidade de 10 litros de água
que
a minha revolta
-
Puta que pariu o duche ! Antes andar carregado de merda!
Em
nada mudou !
A partida para Luanda estava marcada para as 15
horas,
Mas nesta guerra do
“
DEPRESSA E EM FORÇA “
Em que poucas decisões eram definitivas
Exatamente
por não serem desejadas
Como
o não era este ultraje agressivo
À
serenidade vegetal.,
Foi alterada a hora de partida para depois de o
Sol
Como
que a rir de todos nós
Nos
fez um grande manguito com o braço do punho gigante
e
desapareceu
não
antes de nos deitar um olhar ciclópico
incendiado
de napalm
e
que era uma ameaça para o dia seguinte.
Com a alteração da hora foi alterado o programa
também:
Teria que ser eu e o meu sono e a minha revolta
de duche frustrado a
Acompanhar a coluna até Luanda já que o
voluntário furriel
E simpático também
Com a mudança da hora e o escuro da noite
A simpatia enfraqueceu e o voluntariado se
esfumou !
Pequeno intervalo para mudar de guarda-roupa !
Motores em marcha ao cair da noite
Dentes cerrados ao cair da noite
Sono espantado com o meu espanto ao cair da noite
Incoerência do medo ao cair da noite.
Ao volante o motorista pequeno e sabedor
(Coisa rara nesta guerra do improviso)
E o cabo mecânico para assistir, se necessário, à
GMC que
farta
dos maus tratos da guerra
dos
saltos sobre os buracos dos caminhos
do
ribeiro a caminho de Gombo do Zombo
da
subida a pique para a Kissakala
deixou descair o motor dos apoios e tinha que ir
para reparação.
Na caixa o resto da secção de que eu fazia parte
e
o meu sono revoltado
e
as granadas espoletadas e a ameaçar
e
o medo patético e imóvel
Estrada fora
Queixo apoiado na depressão formada pelo
indicador e o polegar
Da mão direita que rolhava o cano da arma
Dormindo
à
passagem pelo Ucua – exposição de psicológica
ou
patológica violência rácica
à
passagem de todas as curvas e buracos
à
passagem do nada de séculos de “civilização”
à
passagem do desprezo-sono pelos séculos de nada
Até ao Caxito. E à Tentativa. E ao hospital
palco
de uma indiscritível confusão
de
homens em macas de lona – no chão
de
homens sem macas de lona também no chão
sim,
apenas no chão!
de
gritos nas bocas das dores dos homens
entrapados
em
trapos ensanguentados
cobertos
de terra e sangue
pelos
corredores de mosaicos impávidos
cinzentos
de frio,
Eram vinte e tal ! Eram apenas vinte e tal !
Como poderiam ser vinte e tal mil !
Na origem duas sub-causas e uma causa final:
a
ignorância na remoção duma granada de bazuca
o
mau estado do material dando origem à explosão
não
ao longe mas à saída da boca do canhão!
Causa final: a que resulta de ali estarem
sofrendo vinte e tal
portugueses
jovens numa terra alheia
-
qual Angola é nossa, qual merda ! –
a
defenderem os interesses de sádicas múmias
Mas os gritos pelos corredores dos ouvidos do
cansaço
não
chegaram para evitar
que
dormisse já à saída da Tentativa
que
à saída da Tentativa já os não ouvisse
que
à saída da Tentativa os tivesse esquecido…
…temporariamente
E tivesse pegado no sono
corpo
cedendo ao cansaço
cagando-se
para os gritos
para
os que morreram entre a Tentativa e Luanda
para
tudo o que viesse a seguir nesta guerra sem regras
até que os chamamentos de
meu
furriel ! meu furriel !
me fizeram pôr de pé
de
Uzi em posição de fogo
de olhos colados na
faixa incendiada de faróis
sobressaltado e inquieto
-
mas não pode ser um ataque entre a Tentativa e Luanda ! –
E começar a disparar
Sonolentamente
Instintivamente
Descoordenadamente
Até que os últimos tiros
Com
a travagem da GMC
Atingiram a parte superior da cabine
Onde
abriram grandes buracos.
Lá adiante, no palco que os faróis iluminavam na
estrada
Um
soldado acabava a pontapé
Com
a frágil vida de um coelho
Já
sem uma orelha e uma pata que as balas levaram
Nesta
noite-toirada sem glória .
E junto à cabine o pânico do motorista e do
mecânico
Apalpando-se
de alto a baixo
Olhando
para o interior da cabine
E
para os dois rasgões a atravessá-la
E a gritarem
Entre
a fúria e o pânico espantados:
- eu tenho-as cá dentro meu furriel, gritava o
mecânico
Mas
como estou quente não as sinto ! –
Ambos levantavam as perneiras das calças
À espera de verem correr para as botas
Vermelho
Um ou mais
riscos de sangue
Que felizmente não apareceram !...
Reis Caçote
Reis Caçote
1961/Setº




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