POESIA DIVERSA - ALENTEJO (INCURSÕES NA PLANICIE) - 16 POEMAS SEM TITULO - DE I a XVI TODOS "POEMA"

 

POESIA DIVERSA - ALENTEJO









QUEM CONHECE O ALENTEJO...













INCURSÕES NA PLANICIE







I – POEMA



Cai a noite

Sobre as pálpebras cerradas

Dos olhos que a abrir se começam

De néon da cidade…

Iguais sempre

A noite

Os olhos de néon

A cidade

Ausente aquilo que os tornariam diferentes…



E teus dias são apenas

A antecipação das noites

Só variando com as condições meteorológicas

E as paisagens que são diversas

E a televisão que da planície quase nada transmite.



Não trazem sonhos leves

Os teus sonhos agitados

Só pesadelos.



De dedos de mãos crispados

Nos cabelos em desalinho

E um grito que se não ouve

Mas se adivinha

E que na minha noite insone

A teu lado se perde !



A:Reis Caçote

03/1985





II – POEMA

O teu grito

Uivo de solidão

Va juntar-se a outros

tantos !

Gritando pela mesma ou

Outra razão

Ecoando ecoando ecoando

Por montes e vales

Transportados nas asas do vento

Ou se arrastando pelo chão.



Da serra para a planície

Da planície para a serra

Tantas vezes em vão !



Recuso-me a servir de carcereiro

De teu grito de liberdade !



A:Reis Caçote

03/1985





III – POEMA



Sobre a planície paira rouco

Teu grito de dor

Aguia exausta !



Sobre a planície em chamas

De Sol ateadas,

Ardendo em baixo…

Teu voo circular

Cada vez mais lento

águia cansada!



Teu pescoço já pendendo

Fitando o chão

Águia solitária

Que não busca a presa !



Como vais tu águia exausta

Das alturas do teu grito

Libertar o companheiro preso

Nas malhas da armadilha

Que implacável espera

Tua rendição ?!



Não deixes cegar teus olhos de mar

Águia só

Da planície prisioneira !



A: Reis Caçote

03/1985





IV – POEMA



Teus olhos de bera-mar

E de águas transparências

Perderam a magia das ondas

Vazados no chão de fogo

Da planície .



Teu apelo de regresso

Não encontrará eco nunca mais



Deusa da mágica planície

Prisioneira !



A: Reis Caçote

03/1985





V – POEMA



Já com os pés em sangue

Na estrada escaldante

Persegues a tua sombra

Alongada agora

Com teus passos de pesadelo,,,



Da planície sabes apenas

Um reflexo de beira-mar

Pincelada breve de sombra

No desértico quadro total

Cuja caminhada iniciaste

E que deves terminar.



A: Reis Caçote

03/1985





VI – POEMA



Tentas em vão

Encontrar

Para as lágrimas ausentes

Uma razão ?



Secaram ? !



Se calhar definitivamente !



E por que não ?



Á assim impiedoso

Para os forasteiros

Este vento suão !



A: Reis Caçote

03/1985



VII – POEMA



Onde estará

A esta hora de Sol poente

O companheiro desta solitária cegonha ?



Longe já

Muito longe !



Nenhum deles saberá quanto !



A: Reis Caçote

03/1985





VIII – POEMA



Os lábios de terra da charca

Gretaram !



Ontem eram ainda lama

Com duas ou três rãs a saltarem.



Se os lábios gretados sangraram

O Sol terá depressa secado as chagas

E o sangue pulverizou

Pela planície.

E as rãs dão agora

Em direcção à eternidade

O seu último salto !



A: Reis Caçote

03/1985





IX – POEMA



Vai la adiante uma sombra

Coberta por branco véu…?!



Neste reflexo da planície

Em chamas de Sol

Já nem sei se é sombra

Se sou eu !



A: Reis Caçote

03/1985







X – POEMA



Sob o Sol em fogo

Da imensidão plana

Desejava mais poder

Aqui imaginar

O verde

As gaivotas

O mar !



A: Reis Caçote

03/1985





XI – POEMA



Mas será que ainda existem

Gaivotas no mar ?



Ou este olho de ciclope as afogou

Para de seguida as secar ?!...



A: Reis Caçote

03/1985





XII – POEMA



Porquê de repente

Este silêncio

Que

Com o Sol a pique

Caíu sobre a planície ?



Nem aquela cigarra

Que a “cantar “ naquela sombra de ramo

Parecia de loucura

Aumentar a planície

Agora eu oiço !



E este meu grito

Que na garganta morreu

Porque o não oiço eu ?



O que irá de mim restar

No final desta peregrinação

Ao santuário da planície



De cujo deus é o Sol ?!



A: Reis Caçote

03/1985





XIII – POEMA



E agora

Da planície

Cantares mágicos

Como irei ouvir-vos ?



Só me resta regressar

Sobre os meus passos

Que não oiço

Que não vejo

Que não sinto…

Passos trágicos !



A: Reis Caçote

03/1985





XIV – POEMA



E cá ao longe

À beira mar

E ao vento

Sem tudo o que perdi

A procurar-te

Hei-de inventar-te

Planície :

Quente

Melancólica

Mágica

Sempre cantando

Ao ritmo do pensamento

E das ondas !



A: Reis Caçote

03/1985



XV – POEMA



As lágrimas que não correm

Hão-de secar.



Quando sob o sol de Verão

Da planície

Eu transformar em nuvens

O rebanho acarrado sob o chaparro

E à pele queimada do pastor

Eu transmitir uma brisa fresca

De Mar !



A: Reis Caçote

03/1985





XVI – POEMA



Ah, como é diferente

Em Março

Sentado à mesa de um café

Do litoral

Inventar a planície

Inundá-la de sol

Percorrê-la de pés nús

Pelos asfaltos e restolhos !



As debulhadores engolindo

O mar domado de espigas

E as nuvens de terra

Dos caminhos

A poisar sobre os rostos queimados

E dos tractores.



Não !



Em Março devia

Da planície contar

O sono húmido

E acordar dentro dum mar verde



Ainda à espera do Sol !!



A: Reis Caçote

03/1985



























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