POESIA MILITANTE- 1º LEIS da VIDA e da MORTE (14 poemas) + DIVAG.,S/LUANDA - 1º Adelino - (14 poemas)
POESIA MILITANTE I
Inclui o período de 1961 a 1963 – Angola
1 - LEIS DA VIDA E DA MORTE
Exercício triste
Exibido em camara lenta
Sobre a corda bamba do circo
Da ramagem de árvore
Quase só ramos
Que folhas incipientes abandonaram
Pelo pequeno cameleão pré-histórico
A convencer-nos e a convencer-se
Dolorosamente
Duma tímida agressividade
Nuns olhos sempre abertos de estranhas visões.
Mais acima
Em rara demonstração de destreza acrobática
E de provocação ao ponto de interrogação do rabo do cameleão
Um esquilo eriçado de fome
Olhos vivos e cabeça no ar … a espreitar.
Cada um de sua maneira cumpria
Esforçada e honestamente seu papel e voluntariamente
Naquele espectáculo de circo pobre
Como saltimbancos de aldeia tentando
Distrair os militares de intervenção
Involuntários da guerra
E da defesa do assucar da Tentativa
E do café de todas as roças
E do sisal de todos os Ucuas
E dos diamantes- de quem ?
E da Angola é nossa
E da Pátria una e indivisível…!
Não estaria nos cálculos dos dois trapezistas …
… tudo leva a crer…
O cruzarem-se no caminho do outro
Partida que a Natureza lhes pregou!
Enfrentaram-se:
O ar carrancudo do herdeiro milenar
com
o distraído olhar do esquilo de vison pelintra.
Da boca pré-histórica um dardo veloz saiu
Atingindo a boca de riso ausente do esquilo
Desequilibrado e suspenso do ramo o camaleão
Como que enforcado pela própria língua
Aquele frágil representante do paleozóico no chão caíu
De boca aberta de espanto
Veio morrer em silêncio e dignidade de seus antepassados
Tendo como testemunhas os fardados
Aguardando sua chamada para a guerra!
Reis Caçote
1961/14
2 - ADEUS, ATÉ AO MEU REGRESSO
O primeiro!...
Avança uma farda até ali anónima:
fala o soldado tal número tal a bateria tal
para seus pais irmãos tias e primos
desejando a todos um natal muito feliz e
um ano novo cheio de prosperidades …!
Outro!...
Indecisa outra farda avança a olhar para os pensamentos:
fala o soldado tal da bateria tal…
… olha em volta… …
- olha o número ! alguém grita
número tal
para sua querida mãe noiva irmã
restantes familiares e amigos
desejando a todos um Ano… ?... um Natal cheio … um
ano feliz… ?... um Natal…!
até –ao – meu regresso
indeciso… com dúvidas … !
Para este não houve regresso!...
De regresso, à noite, numa curva da estrada, o jeepão se virou
Entre a gravação e o Natal
Entre Luanda e o Caxito…
Reis Caçote
1981/14
3 - HELICOPTERO
É já a segunda vez hoje
Que o gafanhoto gigante
De asas adejantes sobre o costado
Em movimento circular
Agredia os ares de Angola e da Tentativa
Poisando frente ao hospital
Atarracado e tristonho
Perdido no oásis do palmal.
- houve grossa borrasca de certeza –dizia-se
Mas faltava autorização para ir ver – sabia-se~
Às escondidas no dia seguinte
Ainda a manhã bocejava e o Sol os olhos húmidos esfregava
Fomos à casa mortuária…
dois corpos de caqui
empastado de sangue e terra
com o rosto de pavor definitivo
deitados de papo para o ar
tendo ao pescoço uma declaração
para lápide da eternidade
aos vinte e pouco anos
registada num cartão-identificação minia
que se recusavam a soletrar.
Um exibia com os olhos entreabertos e sem brilho
Um buraco de bala entre as sobrancelhas
Como nos livros de cow-boys dos 15 anos.
O outro de olhos cerrados e boca aberta de espanto
Apresentava uma “segunda boca “ enorme na nuca
Obliqua e arreganhada por onde a vida se esvaíu.
Não encontrámos vestígios de alma
Que o capelão encomendou…iria a caminho do céu ?!
Nenhum deles nem nós encomendou a guerra
que continuava lá fora
à procura de mais almas !
Encomendadas ou não!...
Reis Caçote
1981/14
4 - A CAMINHO DA ESMERALDA
A tentar encher de coragem o pensamento
Penetrámos de medo a noite da picada !
Manifestado no murmúrio abafado das vozes
Nos guinchos dos rodados das Gê Eme Cê’s ampliados na noite
A quem silenciosamente chamávamos
- filhas da puta !
Nos faróis das viaturas de trás
Insistindo em iluminar e transformar em alvo
A da frente em que seguíamos.
Nos solavancos travagens e bruscos arranques
Frutos da inexperiência e do cagaço dos motoristas.
Na preocupação de fingir coragem e descontracção
Quando o medo e a tensão se transformavam
Em gestos e mudos insultos
só os gestos se viam !
No vergastar cadenciado dos rostos
Pelos flexíveis e finos ramos
Curvados ao peso das bagas avinhadas de cor
Que os faróis de trás mostravam e não identificámos.
No aroma forte e bom que de todos os lados chegava e que
Mentalmente traduzíamos como uma Primavera em Setembro e
Que naquela latitude mandou à merda o calendário.
Na ordem de parar a coluna chegada ao rádio portátil e
Na “coragem” do capitão sem galões por conveniência táctica
Passando para a frente da coluna mal avistou o sinal da Kibaba
5 - KIBABA - PONTO DE CHEGADA
Na aproximação da “traição “
Identificada na fita amarela a cingir uma carapinha sem côr.
Na arrumação apressada dos móveis de destruição
Ocupando e esmagando com os rodados o trabalho
Representado nas agora acinzentadas bagas
Que teriam sido apanhadas dos agressivos ramos da picada laterais
Por mãos ausentes de brancas palmas
Agora representadas, apenas na cor
Pela fita amarela da “traição”.
No desentorpecer das pernas, dobradas pelos joelhos horas a fio
Doridas de medo a fingir coragem
Na tensão aumentada em cada curva
Em cada vaga vegetal a escor5er das encostas e
Abafando o pó da estrada.
~
Sobretudo na passagem pelo Úkua
Com a macabra recepção promovida
pelos encarregados da expansão
da fé e do Império !
Traduzida no perfilado alinhamento
Das dezenas de cabeças tumefactas
Ensanguentadas e deformadas
Com a carapinha coberta de pó como a negra pele
… algumas pareciam rir de nosso medo ! .
E que na falta do suporte natural – os corpos
Escolheram para os substituir finos paus
enfiados na traqueia e que
mal plantados no chão oscilavam
ameaçando vir ter connosco à estrada
à mais leve deslocação de ar !!!
No respirar fundo a fingir de aliviado
Percorrendo o olhar em volta e ver:
em frente uma mancha negra uniforme
lombo de baleia-gigante que crescia para longe
e de seguida quebrava bruscamente
solenemente
respeitosamente
na informação-arrepio sussurrada
é a Pedra Verde !!!
Reis Caçote
1661/06/Set.
6 - PRIMEIRA ALVORADA
De olhos doridos e ineficazes, mas incapazes de fechar-se
De ouvidos analfabetos à maioria dos sons da noite e da mata
De braços-gestos descoordenados mas abraçando as armas
De língua quitinosa de sede e recalcada de silêncio mas prometendo vingança
Da necessidade uterina de podermos olhar o que nos cercava e deprimia
Esperámos pela manhã
(Filha querida da noite
Da noite do nosso medo a fingir coragem
Da noite camara e gás do desejo do cigarro
Apagado pela prudência )
Que pouco e pouco foi chegando como cobra a rastejar
Modificando o perfil das coisas
Acordando os que não estranhos como nós
Os que não forçados como nós
Se espreguiçariam… lentamente… naturalmente
No final duma noite em que apenas nós
Os estranhos
Os espantalhos da coragem
Nos permitíamos alterar
Mesmo que levemente
Mas sempre abusivamente.
E então vimos:
A Pedra verde do lado de fora da lente da Resistência
Era o perfil de um punho fechado
Socando com violência um ventre de nuvens
Que num abandono de morte pareciam pairar
Brancas e puras
Na base do pulso-pulsante
Que sustentava o punho
E dava violência ao soco.
O braço daquele adamastor parecia repousar solene ou
provocatoriamente calmo ?!
Desde o punho lá ao longe, percorrendo com olhar curioso agora
da esquerda para a direita
quase até junto de nós
deslumbrados
na colina da Kibaba…
Reis Caçote
L961/06/Set.
7 - O AMANHECER NA GUERRA
Espreitando-nos sem cerimónia
e porquê cerimónias connosco ?!
Surge o Sol para lá do punho
de certeza como era costume ?
embaciado como era costume ?
Responsável, temos a certeza
Pela fuga do branco véu de nuvens
Que cobria toda a mata
E pelo exuberante oceano verde e calmo
E que o nosso atordoamento parecia ameaçar
A cada instante
Galgar os escassos metros da colina
Arrastar na passagem os tenros abacaxi
Arrancar pala base o tronco-esqueleto
Com o palanque-miradoiro lá no alto e
Fazer ruir o que restava da chamuscada casa do capataz
E perguntar-nos:
Quem vos autorizou ?
Quem vos aconselhou ?
Quem vos enganou ?
Ou então
Quem vos obrigou a invadir pela força
O que eu
Sem violência
Ajudei a construir ?
Reis Caçote
1961/06/Set.
8 - A NOTICIA
Não é uma boa noticia que te vou dar !
…?!...?!...?!...
Chamei-te para te comunicar
…voz de wiskie com galões a soar distante…
Que
Como único furriel de artilharia no pelotão de comando
Terás de integrar o efectivo da bateria 147por algum tempo
Em substituição do furriel “Sousa”
Internado no hospital !
Deves ir já preparar tuas coisas e
Apresentares-te no Grafanil.
Assim mesmo ! A frio !
Lá sim
No RAL havia a encenação
“gozada” pelos que não eram mencionados
De manter na dúvida
Que era esperança
E tortura também
Como encarcerados fora das grades
Uma unidade militar quase inteira !
Aqui não
Já não era precisa encenação
Nem contemplação
Estava cercado !
9 - A GUERRA SOB TENSÃO
Do Caxito às Mabubas
E das Mabubas à Kibaba
Só o Úcua mostrava a face do terror !
Naqueles olhos de espanto
Com o brilho das estrelas na noite da pele
Baços como este fim de tarde de horror.
Mansamente caía sobre os nervos da guerra
O cacimbo e a noite.
Postados de cada lado da estrada
A meio da encosta do abacaxi
Dois soldados
De espingarda em punho e
Do papel compenetrados :
- Alto ! Quem vem faça alto !
Parámos...
Que se passa ? perguntei
- Sabe o que é ?! Estamos bem fodidos!
Oh, homem, mas que se passa?...fingindo calma !
- Então é com esta merda (mostrava a Mauser) que nos vamos defender ?!
- Mandaram os caçadores embora e nós ficamos aqui enterrados ?!
Passámos…
Tinha estalado a “guerra” no acampamento !
do palavrão – que não repito
do silêncio solene – que não consigo traduzir
Entretanto chegava a noite impiedosa e o cacimbo com ela
A penetrar-nos lentamente
Pelas fendas do desencanto
Desta guerra
sem tiros
sem inimigos à vista
sem motivo suficiente como todas as guerras.
Cada um passeava a guerra dos outros
nos passos de chumbo e desespero
Cada um arrastava a impotência
no passeio deselegante da espingarda
no obsceno silêncio dos obuses.
O leque das viaturas de faróis no máximo a noite inteira
na direcção da orla da mata
Os obuses, de “rabo” entre “as pernas”
com o tubo na horizontal
A diversidade dos sons vindos algures da mata
a penetrarem de arrepio a medula
O ruído da serra mecânica lá ao longe e
Duas ou três rajadas de tiros
De certeza para matar o medo que não morria
A manhã estendeu sobre a mata um denso lençol de neblina
Lentamente expulsa pelo Sol
E com ela o nosso húmido frio.
Lá distante, no ponto mais alto de uma árvore que devia ser imponente
Única que conseguiu romper o denso e alvo manto
Duas bandeiras brancas que mal se distinguiam
Iniciaram um ritual de sinais!
Indecifráveis pelos códices da guerra !
- Vamos ser atacados em breve, falavam os galões inexistentes !
- Montar de imediato a defesa :
- as secções aos seus postos !
- as bocas de fogo em posição de tiro directo !
- restante pessoal armado e nos pontos estratégicos !
- e depressa ! berrado !
Assim mesmo !...
Binóculos apontavam na direcção das bandeiras brancas
Obuses de tubos em direcção ao chão
caricatos !
Espingardas aperradas nas mãos das fardas e capacetes
Murmúrios e nervos-silêncios de velar-vivos
Tensão e irritação horas a fio !
à espera do ataque que demorava !
à espera do Sol que encharcado subia e pouco aquecia !
à espera da ordem de disparar que não se ouvia !
à espera do fim dos sinais que não paravam !
Como o tempo se arrastava ….!!!
nesta espera tensa de corda de viola
neste arrepio teimoso que vem…não sei que ponto cósmico
neste latejar de têmporas e acelerar de batidas de coração.
Duas horas se passaram ! ou mais ? ou menos?
As bandeiras agitaram-se com rapidez e no Ar
Leve e elegante
Uma bela ave se elevou
asas enxutas e consigo levou o nosso acumulado medo
Num profundo e geral suspiro de ALIVIO !
10 - A FESTA DA GUERRA NA NOITE
Saco um sacoooo um daqui saco quatro
Saco um sacoooo um daqui saco quatro…
Kapa
Passo à escuta.
O breu húmido e viscoso da noite violada
Por este monocórdico código de guerra
Por este pesadelo roufenho do medo a querer ser silêncio
Por este búzio sem mar a bater nos limos dos tímpanos
Por este apelo de mãos crispadas na voz de fundo de poço
Por esta provocação à ansiedade de saber o que havia
Que queria
Por que clamava
Por que incitava cada um de nós
A chama-lhe mentalmente
Um chorrilho de insultos !
Saco quatro saco quatro daqui saco um
Saco quatro saco quatro daqui saco um
Kapa
Escuto.
Voz de sargento-jeepão-rádio:
Transformado em mãos trémulas e indecisas
Transformado em balão de raciocínio vazio
Com os pêlos dos braços eriçados e
Engolindo a irritação
Cantavam à desgarrada da vida
Este fado-canção de morte de sacos
Lenta… demasiado lenta como convém.
Saaaco um saaaco um daqui saco quatro
Etcetc etc…etc…
E a boca cada vez mais seca
A língua-pincel-de-frasco-de-cola a arrastar pela boca
- atenção: a água não pode ser bebida pode estar envenenada
… passo à escuta.
Este filho- da-puta está é a gozar connosco !
Porque não diz duma vez por todas o que quer !?
Saaaco um Saaaco um daqui saco quatro
Pede-se tiro de barragem para a concentração quinze
Confirmo : tiro de barragem para a concentração…
Kapa.
Porra ! Até que enfim diz o que querem !
No ar o silêncio de um mar de perguntas:
mas o que se estará a passar ?
mas onde fica a concentração quinze ?
mas que merda de segredos estes ?
mas que temos nós a ver com isto ?
mas qual Angola á nossa ?
Tenho é sede ! E sono ! E medo !
Saco quatro saco quatro daqui saco um
Entendido. Kapa .
A confusão aumentou na plataforma inferior
Onde já antes era grande, num ápice
Se transformou no hotel da barafunda:
ordens de boca em boca
corridas em todas as direcções
cabeças enfiadas dentro dos capacetes
obscenidades em cascata no ar
em vez da barragem de tiro que o saco pedia
para a concentração.
Mas concentração de quê ?
O comandante dando-se ares de Virtuoso
Continuava a pensar que dirigia a guerra
E a sentir-se indispensável naquela questão de partilhas
“Angola é Nossa
Colocado do lado da “razão”de quem decidiu
… E quem nos perguntou a nós alguma coisa, porra ?!
E nessa linha de decisão ordena-pergunta :
Bateria pronta ?
Pronta, meu capitão ! O eco prossegue:
Primeira secção ? Pronta !
Segunda secção ? Pronta !
Etcetcetcetcetc ? pronta!
Oitava secção ? Pronta !
Atenção à ordem de fogo !
Primeira secção, fogooo…Bummm ecoando até…
Segunda secção, fogooo…bummm ! até a oitava …!
Ruído de ferros a deslizar.
O capelão-alferes atrás dos obuses e dos tiros
De missal em punho
Balbuciava uma oração, interrompida para se benzer
Mal nova série de disparos terminava
E continuava
Baixinho…
- está a estudar alguma tábua de tiro, meu alferes ?!
Não blasfemes !
e continuava a rezar
não sei se pela guerra se pela Paz
e a benzer
não sei se os mortos se os vivos
…BUMMM ! ai a minha cabeça !
Oitava secção fogo -BUMMM e segundos depois, lá longe,
Bumm!
A seguir o silêncio antes violado
O silêncio e o sono
O silêncio o sono e a sêde
O silêncio o sono a sede e o cigarro !
A voz caverna saco quatro insistia
A voz safada do saco três pedia
Ambas a noite toda
Com pequenos intervalos de gozo para iniciarmos o sono
Angola é nossa !
E logo de seguida o ribombar na noite
Como um pontapé no cérebro cá na Kibaba
Violência que o punho devolvia a soco
Pulverizada de ecos
Abafado e desesperante por desconhecida
Lá nas concentrações de sacos .
Quero ir para casa !
Quero ao menos ir para Luanda!
Quero ir ao Miramar e beber uma cerveja fresca !
Vendo a minha parte de Angola por vinte e cinco tostões !
Sons nos intervalos dos BUUUUNNNNs
Aos saltos a noite toda !
11 - ALVORADA NA KISSAKALA
No ponto onde a picada se encarrapita para a sanzala
Entre dois postes de cimento a fingir de fronteira
E pendurada na corrente a ligar os postes
Uma tabuleta avisava:
“ todo o branco que se aproximar, morre !”
E morreu ! Com dezassete tiros no baixo ventre !
Desfeitos pénis e testículos !
Assim mesmo ! Lenda ou descrição factual nunca o soube !
Certa, certa era a promessa de lá ir
E a curiosidade de poder observar o que de falso ou verdadeiro existia.
A vontade de poder penetrar aquele manto verde de folhas
Aquele oceano de águas paradas
Calmo como sono de criança
Chegar bem perto daquele punho gigante
A socar as nuvens e céu
Poder saber qual a bandeira que o punho segurava
E colocava nos binóculos da Kibaba…
E fui.
Partindo a meia tarde da Kibaba e de Angola
Para ali, mesmo em frente
A caminho da lenda e da morte
e da curiosidade
e da inconsciência
Transportando caçadores de improviso e de guerra.
- antes do anoitecer estamos lá
- são dois ou três quilómetros, é rápido
- apeamos os caçadores e voltamos para a Kibaba.
E por que não para Luanda ?!
E por que não para casa ?!
Sim, de Gê Eme Cê, que importa ?!
Oque é preciso é voltar !
Dois ou três quilómetros …!!! Duzentos ou trezentos…!!!
O fim da tarde de chumbo apanhou-nos na picada
Lentamente percorrida
Constantemente parando
Olhando e vendo cada vez menos.
A noite derreteu o chumbo da tarde
Que começou a escorrer
Lesma pegajosa.
Os faróis incendiaram de luz as árvores laterais da picada
E derreteram mais o chumbo da noite, que ficou lodosa
O ar de forno por baixo de pântano não cabia nas narinas
Respirava pela boca como peixe fora d’água
E transpirava da pele para a camisa suja
E da camisa suja para o nojo da pele.
A picada apertava-se como linha de ferro na recta
E não se deixava penetrar pela luz dos faróis
E ajustava-se como garra no pescoço
E em volta do cantil quase vazio…
…ai tanta sede !
E a sensação de mergulho nas vísceras
de monstro pré-histórico trazia uma sensação
De soco no estômago e de vómito seco de ração de reserva !
E o motorista
Pequenino mas eficaz
Do lado da ribanceira e dos troncos
Monstros cortados a golpes de catana
De certeza pelo gigante de punho-rochedo
Ou vontade maior que o punho
Em que a bandeira empunhada cabia
Nos binóculos da Kibaba.
E eu que não consigo vomitar !...
Mas vomitar o quê ?!
o medo ? O mijo ?
Cá estão os dois pilares de cimento !
De corrente…nada !
De placa… nada !
Quem se atreveu a destruir, sem glória
Os fundamentos desta fronteira ?!
Quem pretendeu apagar … sem risco
Os vestígios da incapacidade de compreender a história ?!
A todos ofereço esta náusea e frustração que me invadem.
Não quero ser interveniente de uma história apagada !
Ouviram porra ?
Ouviram seus merdas ?
A ranger os dentes de ferros e travões
A gê eme cê parecia um alpinista picada acima
Gemendo pesada e dolorosamente,
Até que
estacionámos enfim
nesta cratera aberta na barragem negra da noite e da mata.
Mal se identificava o punho !...
Regressar à Kibaba àquela hora e com meia dúzia de
guerreiros-motoristas, não !
Há que tentar dormir
Na cabine da gê eme cê
Abraçado à pistola-metralhadora Uzi
Companheira inseparável na guerra
Testemunha dos meus pavores
Calada como convém
Leve e fria como convém.
Não conseguia adormecer naquela posição.
E lá vinham as recordações:
Luanda mal conhecida
A baía serena e fresca
Os camarões a escaldar na boca de piri-piri
A cerveja fresca… muita cerveja…
…ai tanta sede !...
O cinema à fresca do cimo da ravina a cair para a
Baía
Os rostos belos e tristes ou
Os olhos curiosos a olhar-nos de soslaio
As velhas sempre de pano vestidas
As crianças às costas das mães
Negras como elas
A esborracharem o nariz no sono cabeceado
O pregão da quitandeira bananoé.
É preciso dormir… … é preciso dormir … … é preci …
Rá tá tá rá tá tá rá tá tá rá tá tá rá tá tá
De todos os lados daquele acordar de dia !
Porra ! Agora é que é a sério – pensei :
A desenroscar-me na cabine
E a abrir a porta e saír
Agachado e pasmado
Olhei em volta aquele cerco de árvores frondosas e densas
Para a cubata destruída e chamuscada
Para o imbondeiro calcinado num dos lados
Negros : “ terroristas “ ou traidores, nada !
Nem o que se “entregara “ no inicio da noite
E me segredara que as aves que tinha morto no dia anterior
Não bastava serem depenadas, tinham de despir-se da pele para
…serem tragáveis
Só o rá tá tá rá tá tá continuava
Minutos a fio
Menos por certo que os que calculava
Mais, muito mais do que os desejava.
O rá tá tá das G3, que não vira antes.
O que se passa ? consegui perguntar a uma farda próxima e sem rosto
Que nem me olhou !!!
- Tiros de reconhecimento – respondeu.
Para acordar o punho, pensei !
Que olhei e não se parecia com um punho depois da
Alvorada na Kissakala !!!
12 - GUERRA DO ABACAXI
Com um ar de nítido cansaço e sujidade
Visível na roupa e no rosto
Chegaram perto do meio dia.
Com eles chegava também
Lamentavelmente
Uma boa dose de destruição
Que era desespero também.
Notava-se no mau uso das catanas
A cortar pelo meio o caule oco das papaieiras
Na batalha campal improvisada
Com os abacaxi em crescimento
Verdes como nós nesta guerra de cansaço
De nervos e destruição.
Estiveram na Kibaba pouco tempo.
Apenas uma noite.
Na manhã seguinte teriam de ser levados
Serra acima
Para Gombo do Zombo.
Mal o dia clareou
Sem alvorada de rá tá tá G3
Descíamos já a breve colina em direcção à picada
Atrás da Panhard que encabeçava a coluna de Gê eme cês.
- Segure-se meu furriel ! grita o pequeno Tiago
Mal tive tempo de ver o que se passara
E tinha já batido violentamente com a cabeça
No tecto da cabine da GMC.
Tínhamos passado um pequeno ribeiro
Atravessado por troncos frágeis a servir de ponte
Que não suportaram o peso da auto metralhadora.
A GMC passou com dificuldade e por certo danificada.
E…
Nem para trás olhámos para ver o que se passaria com os outros !
O destino era em frente para o alto da serra.
Duas horas para percorrer dois quilómetros!
Duma paisagem deslumbrante
Serra acima
Num trilho que dispensava o volante
Bastava o acelerador ! A fundo !
A picada terminava bem no alto
E no ar
Jactos a passar e a picar
Na direcção de duas ou três humildes habitações
Onde descarregavam metralha aos milhares
Que tracejava no ar e depois ricocheteava
Em direcção às copas verdes da mata.
De repente
Qual cena de filme diabólico
Um enorme clarão e uma incandescente fogueira:
Era o napalm largado por um dos aviões
E de seguida o outro.
Os caçadores da guerra como cães amestrados
Corriam encosta abaixo
Loucos aos tombos
Saltando arbustos e espinheiros
Parecendo todos quererem chegar primeiro
Ao bairro de três casas
Agora só paredes e onde não podia haver viv’alma
Depois de uma noite a ser bombardeada pela artilharia da Kibaba
Pedida via rádio para a concentração do saaaaco quatro!
E depois de uma manhã de chuva de balas e napalm despejada
Pelos Fiat mal dormidos
E o assalto dos caçadores como horda tresloucada !
Prefiro narrar esta canalhada de violência em cadeia.
Não
tenho capacidade para fazer Poesia com lama!…
13 - PLANO GORADO NO DESCANSO
Todos os homens da secção tinham feito já sua folga
Porque a guerra também tem folgas.
Hoje era o meu dia.
E esta perspectiva de poder dormir umas horas
Mesmo que apenas nos intervalos dos obuses
Conseguia sobrepor-se na qualidade e desejo
À outra de viajar para Luanda
Acompanhando uma coluna de três viaturas
Onde podia afogar-me num desejado e necessário duche
Cortar a barba e arejar as borbulhas
Agitadas e irritantes
Beber uma ou várias cervejas
Encher mais um ou dois capacetes de cigarros a granel
Que na fábrica nos ofereciam
Dar uma escapadela à pressa ao Bracarense
E dar um abraço aos amigos.
Plano delineado havia que preparar para dormir
Enchi o balde de lona e o pendurava
Com a experiência da primeira vez
Na barra que atravessava o cubículo também de lona
Montado ao cimo da encosta nascente
Atapetada de tomateiros e tomates
pouco maiores que cerejas
ridiculamente pequenos
ridiculamente rastejantes
Perante a magnifica beleza da serra em frente
Que nos transformava em pequenos seres
E tornava ridícula esta guerra
Com duches improvisados
Com guerreiros improvisados
Com medos improvisados
Dolorosamente reais.
E mal entrei:
Vestindo a cretina timidez fardada
Receando ofender algum curioso olhar
Que não existia na Kibaba
Despejou-se-me sobre a roupa
Coberta de suor e terra vermelha
A mísera quantidade de 10 litros de água
que a minha revolta
- Puta que pariu o duche ! Antes andar carregado de merda!
Em nada mudou !
A partida para Luanda estava marcada para as 15 horas,
Mas nesta guerra do
“ DEPRESSA E EM FORÇA “
Em que poucas decisões eram definitivas
Exactamente por não serem desejadas
Como o não era este ultraje agressivo
À serenidade vegetal.,
Foi alterada a hora de partida para depois de o Sol
Como que a rir de todos nós
Nos fez um grande manguito com o braço do punho gigante
e desapareceu
não antes de nos deitar um olhar ciclópico
incendiado de napalm
e que era uma ameaça para o dia seguinte.
Com a alteração da hora foi alterado o programa também:
Teria que ser eu e o meu sono e a minha revolta de duche frustrado a
Acompanhar a coluna até Luanda já que o voluntário furriel
E simpático também
Com a mudança da hora e o escuro da noite
A simpatia enfraqueceu e o voluntariado se esfumou !
Pequeno intervalo para mudar de guarda-roupa !
Motores em marcha ao cair da noite
Dentes cerrados ao cair da noite
Sono espantado com o meu espanto ao cair da noite
Incoerência do medo ao cair da noite.
Ao volante o motorista pequeno e sabedor
(Coisa rara nesta guerra do improviso)
E o cabo mecânico para assistir, se necessário, à GMC que
farta dos maus tratos da guerra
dos saltos sobre os buracos dos caminhos
do ribeiro a caminho de Gombo do Zombo
da subida a pique para a Kissakala
deixou descair o motor dos apoios e tinha que ir para reparação.
Na caixa o resto da secção de que eu fazia parte
e o meu sono revoltado
e as granadas espoletadas e a ameaçar
e o medo patético e imóvel
Estrada fora
Queixo apoiado na depressão formada pelo indicador e o polegar
Da mão direita que rolhava o cano da arma
Dormindo
à passagem pelo Ucua – exposição de psicológica
ou patológica violência rácica
à passagem de todas as curvas e buracos
à passagem do nada de séculos de “civilização”
à passagem do desprezo-sono pelos séculos de nada
Até ao Caxito. E à Tentativa. E ao hospital
palco de uma indiscritível confusão
de homens em macas de lona – no chão
de homens sem macas de lona também no chão
sim, apenas no chão!
de gritos nas bocas das dores dos homens
entrapados
em trapos ensanguentados
cobertos de terra e sangue
pelos corredores de mosaicos impávidos
cinzentos de frio,
Eram vinte e tal ! Eram apenas vinte e tal !
Como poderiam ser vinte e tal mil !
Na origem duas sub-causas e uma causa final:
a ignorância na remoção duma granada de bazuca
o mau estado do material dando origem à explosão
não ao longe mas à saída da boca do canhão!
Causa final: a que resulta de ali estarem sofrendo vinte e tal
portugueses jovens numa terra alheia
- qual Angola é nossa, qual merda ! –
a defenderem os interesses de sádicas múmias
Mas os gritos pelos corredores dos ouvidos do cansaço
não chegaram para evitar
que dormisse já à saída da Tentativa
que à saída da Tentativa já os não ouvisse
que à saída da Tentativa os tivesse esquecido…
…temporariamente
E tivesse pegado no sono
corpo cedendo ao cansaço
cagando-se para os gritos
para os que morreram entre a Tentativa e Luanda
para tudo o que viesse a seguir nesta guerra sem regras
até que os chamamentos de
meu furriel ! meu furriel !
me fizeram pôr de pé
de Uzi em posição de fogo
de olhos colados na faixa incendiada de faróis
sobressaltado e inquieto
- mas não pode ser um ataque entre a Tentativa e Luanda ! –
E começar a disparar
Sonolentamente
Instintivamente
Descoordenadamente
Até que os últimos tiros
Com a travagem da GMC
Atingiram a parte superior da cabine
Onde abriram grandes buracos.
Lá adiante, no palco que os faróis iluminavam na estrada
Um soldado acabava a pontapé
Com a frágil vida de um coelho
Já sem uma orelha e uma pata que as balas levaram
Nesta noite-toirada sem glória .
E junto à cabine o pânico do motorista e do mecânico
Apalpando-se de alto a baixo
Olhando para o interior da cabine
E para os dois rasgões a atravessá-la
E a gritarem
Entre a fúria e o pânico espantados:
- eu tenho-as cá dentro meu furriel, gritava o mecânico
Mas como estou quente não as sinto ! –
Ambos levantavam as perneiras das calças
À espera de verem correr para as botas
Vermelho
Um ou mais riscos de sangue
Que felizmente não apareceram !...
14 - O REGRESSO DA GUERRA
O desejado dia de regresso a Luanda
Tal como o anúncio da ida para o “mato”
Surgiu inesperadamente
E sem a natural alegria
Porque outro
Como eu alheio a esta dolorosa provação
Iria ocupar o lugar
Involuntariamente por min usurpado.
Um breve adeus foi a despedida
aos que ficavam
contrariados mas ficavam
raivosamente mas ficavam.
Depois do vale de alto capim a esconder as bananeiras
Que a fita-traição tatuada na cabeça negra
Ensinara a procurar e escolher…
E ao punho na ponta do braço do gigante vestido de verde…
E à kissakala que recordei, ocupada de susto e de metralha esventrada…
E às campas vazias na gruta vegetal da orla da pequena aldeia…
- eles não abandonam os mortos, dizia-se ! –
E à safadeza-coragem do soldado (Bento?) que trepou ao punho
e substituiu a bandeira que o punho segurava
vermelha da liberdade
pela portuguesa da ocupação !...
E ao Úcua e sua macabra exposição
cada vez menor
da violência imposta pelo sisal e pela serração de madeiras
as cabeças que faltavam foram ocupar outro lugar agora
na memória da resistência…
E ao Caxito
com a nefanda recordação do soldado a gabar--se
da manutenção duma cópula à beira da estrada
com uma pobre negra que depois enganou
na retribuição do angolar…
E do rosto mais perfeitamente esculpido
pelo cinzel da natureza que lhe colou um filho nas costas..
E da Tentativa
e seu exército de vigiados seminus
de olhares tristes, uns e carregados, outros
a receberem o salário-insulto dos outros
de certeza a prometerem
em seu prevenido silêncio
um futuro liberto
E do comerciante branco, na colina
A cobrar a especulação de amostra de bife de veado
E a quem, como retaliação, subtraímos
A garrafa de licor e os ovos no aparador
Que transformámos em bolas de feira !...
E do Cacuaco
Não sem antes parar para afogar a sede
E este cansaço enorme
Em dois copos de cerveja…!
E depois, enfim
Este longo e terno abraço no olhar
À Luanda que só lá longe na Kibaba
Nos momentos de descanso da estrada
Nos pesadelos-sobressaltos de obus
Diurnos e nocturnos
Aprendi a admirar e a amar
Na ausência
Que de Luanda
Noite e dia
Me preenchia
Embriagando-me os passos de saudade
Os sentidos de suas noites de afago
O olhar distante de seu arco-iris
De tons castanho-quentes da pele
As narinas de seus odores activos
Os ouvidos de musicalidade de seus merengues e pregões
O coração que pulsava forte perante a certeza
Triste em alguns casos
De que tudo era passageiro.
1 - DIVAGAÇÕES SOBRE LUANDA
… 20 anos depois
Liberta e em construção.
Para o Adelino Tavares da Silva
Que não conheci pessoalmente.
Que como eu de beleza encheu os olhos
De Luanda
As narinas dilatou de aromas ácidos e fortes
Do trópico
E se deixou envolver pelo abraço vigoroso e definitivo
De Angola.
2 - ABSTRATO A FINGIR DE POESIA
É prodigiosa a capacidade de fixação das crianças…!
E é verdade!
Pois eu insisto em ter visto viva a minha avó paterna
Enquanto todos afirmam ter já falecido quando nasci!
- mas lá que eu vi, isso vi ! –
- e numa casa que todos garantem nunca ter habitado !
- … teimosos !!!
Quem me terá fornecido a gravação errada ?
Eu não inventei toda a cena – quase garanto !
Por muita vontade que tivesse de a ter conhecido.
Bom seria que assim não fosse, pelo menos nalguns casos.
Que mal fizeram as crianças
Das Angolas de todo o mundo
Para
De ultraje em exploração
- de todas as formas de exploração
Colonialista, Capitalista, Imperialista
Serem sempre as vitimas ?
Há que terminar com as causas
Definitivamente
Ouviram ?!!!
E que pensar da capacidade revelada para registar
Como num filme a cores
Aos vinte e dois ou vinte e três anos ?!
Não será – tudo leva a crer – tanto a idade quem determina ou não
a capacidade.
Talvez sejam os contornos das imagens ou então será
A sensibilidade.
Quase vinte anos depois recordo uma noite de sessenta e dois
Estou de serviço
às duas da manhã
e às osgas
espalmadas contra a cal
perto da lâmpada tubular
de olhar fixo na borboleta
até que… zás !
ficaram nos cantos da boca
momentaneamente imóvel
aqueles dois remos translúcidos
duns olhos que a luz cegou
definitivamente.
A barriga translúcida da osga aumentava
Lentamente e ia ficando opaca.
E eu estirado no esqueleto do sofá
Deitado de costas sobre os pensamentos
Companheiros inseparáveis das noites das osgas
E da mesas verdes do abafa e do poker
E da parado do silêncio
Interrompido mecanicamente pelo
Sentinela alerta
Alerta está !
Em catadupa as recordações chegavam
Atropelando-se nos do cérebro estreitos corredores
Milhões de fotografias com enquadramento sonoro
Todas querendo ser as primeiras…
Alto aí ! Vamos pôr um pouco de ordem no caos.
Prometo que todas terão a sua oportunidade !
Convencer aquela avalanche de que com a ordem aconselhável
Todas acabavam por beneficiar?!...
3 - VERA CRUZ PARA ANGOLA
Lá vinha a boiar à superfície
Do estômago e do nojo
No balançar violento do Vera Cruz
Os lavatórios fedendo
A mucosa e vísceras
Os canos a recusar dar passagem
À merda vomitada
Ou era vómito cagado ?!
Ninguém pesava nisso !
Os pálidos guerreiros da batalha da viagem
Estirados como bacalhaus na seca e
Os peixes voadores em bando a indicarem o caminho !
O Vera Cruz a mergulhar
Para depois se encabritar
Onda acima
Revoltado contra a náusea do vómito mar
Que nos cuspia de salpicos!...
A fantochada do ensaio e salvamento
Ministrado pelos graduados de terra
Com cara de enjoo como nós
Tanto explicadores como o exercício!
O desejo quase doentio de ver
Para gáudio do maralhal
O veloz empregado de mesa bater
Contra o vidro da pota da copa
Que um olho de capataz foto fotoeléctrico comandava
E que nunca falhou!
A sensação incómoda e caricata de ver
Lá adiante no corredor
As fardas inclinadas como bêbedos
Nos dias em que a ondulação era lateral !
O acordar ainda cedo mas já dia
E não ouvir o ruído dos motores a trabalhar
E o Vera Cruz a tentar despejar para um dos lados
Os milhares de prisioneiros
Daquela ilha superlotada
De anémicos guerreiros …
Estávamos em Luanda !
4 - OLHÒ GELADO FRESQUIHO
… e aquele “ar “ a tentar ser firme e solene
Ao fim de oito dias de ressaca de mar
Quais sonâmbulos arrastados
Maquinalmente para o calor
Da marginal â baía…
Com palmas laterais e calor pastoso atravessando o caqui
E a sede a aumentar
A envolver de alto a baixo nossa capacidade exausta
E o esquerdo, direito
E o um, dois
E o marcaaar passo
E o alto !
Olhó gelado fresquinho !
… mas tão longe ! E eu com tanta sede !
Olhó gelado
Agora já pertinho !Hum !
Dê-me um faz favor…
E logo a sede a fugir da boca
E da língua pastosa
E quase a chegar a garganta…
- você aí, deite já fora o gelado ! ordenam os galões.
E o gelado quase inteiro
A derreter-se junto ao passeio
Fresquinho e tão desejado
Olhó gelado…
Apenas serviu de acicate à sede !
5 - A GUERRA DAS RECORDAÇÕES
De repente
Sem que o conseguisse evitar
Misturam-se em cascata
O ataque cerrado das melgas
Na guerra aérea da Petrofina da primeira noite
As salvas de tiros
Várias e diárias a saudar os que da guerra se libertavam
E iam descansar até quando
No cemitério mesmo em frente…
Com o rafeiro do quartel
A quem um sádico ou incauto pendurou na coleira
Um saguim trapezista habituado a treino constante a
Que o rafeiro não estava habituado
Preferindo a sombra e o fresco do mármore
O jockey criou para uso próprio
Sempre que o seu anexado canino não queria alinhar
Lhe apertava os testículos até à revolta
Depois a fúria e a sempre frustrada tentativa de abocanhar
O rafeiro sempre tentando e aí o saguim saltava para o lombo largo
E então sim passava a ser o jockey saguim!
O fuzilamento acidental executado pelo furriel
Que dava a primeira aula da Uzi que apenas conhecera
No balançar do Vera Cruz
Além dos feridos ainda atingiu o caldeirão da sopa
Coração atingido por duas balas que esguichavam e ameaçavam a
Nossa ração de sopa de feijão…
Com o casamento colectivo dos soldados nativos
Bem à maneira dos de Santo António de Lisboa
Com negras de tramo de laranjeira e
Com filhos pela mão e outros no ventre escondidos
Sapatos-forca abandonados durante a missa em parada militar
- meu alferes, então o ramo de laranjeira não é símbolo de cast..?!
- está calado, não sejas herege, resposta do capelão !
Com o negro a quem a surukuku beijou na cabeça
A gritar de dor a caminho do hospital onde se finou
Cabeça em triplicado perante o olhar solene dos deuses da medicina..
Com o comandante a caír no arame farpado da vedação
- se eu saltar também alguns conseguem ! fanfarrão
Agora ao lado da museológica peça de artilharia no chão
Sangrando da carne e da vaidade.
E o embarque obrigatório e a granel
Nas viaturas militares os angolanos do musseque
Acusados de fumarem liamba
Novidade!
E levados do São Paulo para destino desconhecido
Na noite!
Com o furriel apalermado e sonso
Que se gabava de ter violado
Acompanhando a descrição de risos cretinos
Uma criança negra de sete anos !
É a isto que chamam guerra?! Qual Angola é nossa Qual Merda !!!
6 - ANIVERSÁRIO DO FARIA
Nos anos do Faria
O encarregado das torneiras do céu
Distraiu-se e
Longas horas ficaram abertas.
Correram a tarde toda e a noite
Suavemente…
Até cansar as sargetas
E transformar numa piscina avermelhada
De grandes dimensões
Todo o quartel
Onde as casernas e
gajajeiras
Tomavam banhos de lodo.
O pelotão quase completo
Faltando apenas os graduados
Embriagado da bebida da noite
E da ausência de guerra
Que só um cabo ia inventando
Dia-a-dia
Debruçado sobre um mapa de Angola
Que depois descrevia para a família
Transformando-se quase de certeza
Num guerreiro cansado
Que no caminho de regresso
Até ao Vera Cruz
Perdeu as medalhas.
Os estômagos recusavam já
O frango no churrasco e a cerveja
Decidido foi ir digerir a pançada e a frustração
Para a caserna dos percevejos.
Calças arregaçadas acima dos joelhos
Passando sobre as viaturas mal estacionadas
Naquela linha imaginária por olhos embaciados
Que numa alegria fabricada
Iam traçando na noite e no lodo da parada
E de saudade percorrendo…
Pelo caminho prometeram
Solenemente bêbedos
Festejar todos os anos de cada um.
Falharam!
Que se saiba não houve mais festejos!...
Promessas de vinho a imitar solenidade
Na noite Tropical.
Reis Caçote
1983/dig.8/13
7 - O DILUVIO AFRICANO
Preocupava-me quase com sinceridade a ideia
De não ser por um deus africano reclamada
A autoria do bíblico dilúvio
E da arca salvadora das espécies.
Esta preocupação quase sincera poderia
Contra minha vontade
Tornar-se em doentia obsessão.~
Mas eis que tudo parecia estar resolvido!
Os deuses africanos
Apenas eles
Iriam disputar entre si
Apenas entre si
Nada de interferências estranhas
A autoria daquele dilúvio africano.
Começou pouco depois do meio-dia.
Raras mas grávidas pingas começaram a cair
Sobre a Maianga prevenida como rio seco
E a Luanda a almoçar.
Depois
Encostando-se umas às outras
Cheias e quentes
A escorrer pelas ruas
A lavar o alcatrão
A chocarem em cadeia nos cruzamentos
A galgarem jardins e passeios
A meter todos em casa.
Até perto das quatro horas.
Da forma como surgiu desapareceu
Bruscamente
E na sua avidez incontrolável
Engoliu ruas e casas
Com carros atravessados na garganta
Das ruas degoladas
E arvores a tentar cobrir
As bocas descarnadas das ruas.
Nem a Senhora da Muxima evitou
Que o monstro levasse parte de sua avenida
Em fuga migrou a contragosto
Para a zona da baía.
Reis Caçote
1980/dig.01/14
8 - CORREIO DOS AÇORES
Tinha já engordado alguns quilos de Luanda!
Mas os olhos recusavam-se
Dramaticamente
A aproximarem-se da superfície orbital
Afogados no profundo poço
Negro em redor
Cada noite aumentado
Passada no silêncio do quarto
Relendo pela milésima vez
Sublinhando os sublinhados
A verde A vermelho A azul A preto
Tomando notas à margem das notas
Do dia anterior
Na contemplação pasmada das cartas
E do quarto
Que falavam do filho pela mão da mãe
Ambos lá longe, nos Açores
Mar de lágrimas sobre o pranto-Atlântico…
Noites e noites
Á espera…
Na esperança de voltar!
9 - LUANDA NÃO PODERÁ SER
Luanda…
Não poderá ser
A violência instituída
Na ponta do cassetete
A macerar a carapinha
De álcool e de ultraje
Excedida!
Não poderá ser a violação sistemática
Dos saculares hábitos nativos
Nesta vertigem de vida fardada
Artificialmente imposta!
Não poderá ser nunca a débil compreensão
Resultante de um fugaz olhar
Insistindo em convencer-se da leitura
Dos insondáveis mistérios austrais!
Não não poderá ser isso !
A Luanda verdadeira
Gravada a fogo nas vísceras da sensibilidade
Dos inaptos desenraizados!
Terá que ser outra bem diferente…
Mas também
Aquele afago fresco e húmido
De lábios de onda
A desmaiar de prazer
Nos contornos suaves e quentes
Da Samba…
Aquele abraço de volúpia
De verde-azul das águas mansas e tépidas
No corpo arrepiado de anões coqueiros
Da sonolenta Mussulo!
Aquela eterna e transparente vaidade
Debruçada sobre o espelho da baía dia e noite
Numa compreensível contemplação
De sua tropical beleza!
Aquele aroma forte na cintura
De suor e terra dos musseques
Como vingança e denúncia
De provisórios escorraçados
Aquele desafio lascivo de ancas
Para olhos de outras latitudes
E que crianças e velhos negam naturalmente
No ritmo-reflexo do merengue colectivo!
Aqueles olhos de criança grande
A que a vida ofereceu como modo
Uma caixa de engraxar
Com a qual ele brinca ludicamente
Na invenção do batuque ao domicílio!
Aquele pequeno exército operário
De armas-maços em punho
Ao som de uma lengalenga de timoneiro
Inventaram uma forma colectiva de bater calçada!
Aquela safada oferta que é procura
Contida na insensível abordagem que é convite
- qué mulher?
- é só cinquenta angolar!
Aquela voz de estranhos cambiantes
Do ardina a apregoar
O Noticias e o AbC
Que num quadrado da primeira página
No canto superior direito anunciava:
“ Este jornal publica-se na capital da provincia na tarde da véspera
Da data do cabeçalho”
Luanda também foi isto!
Reis Caçote
1980/dg.01/14
10 - HEI-DE EDIFICAR-TE, LUANDA
Hei-de edificar-te, Luanda
Se calhar de dentes cerrados de distância
Hei-de edificar-te, Luanda
Se calhar de olhos afogados de sonho
Hei-de edificar-te, Luanda
Se calhar de punhos cerrados de revolta.
Hei-de edificar-te, Luanda
Passo-a-passo seguramente…
Hei-de edificar-te, Luanda
Pedra-a-pedra
Nesta sempre teimosa construção da Poesia:
Aspirando tua brisa iodada da restinga
Acariciando teus seios suaves de colinas
Inalando teu perfume profundo de flor tropical.
Descalçar esta hipocrisia de sapatos inabitáveis
Caminhar pelo calor vermelho do pó dos teus musseques
Beijar virgem tua cintura à chuva quente de Dezembro
Abraçar teu corpo mártir de cicatrizes a sangrar ao Sol
Ou…
Estendendo no chão da Maianga um tapete de flores de cajueiro
E sobre a areia solta a seguir ao rio seco
Onde o velho albino
Negro de pele branca de espanto e
Cérebro afogado nos vapores do quimbombo
Insistia em tentativas frustradas
Percorrer correndo ao fim do cansaço
A distância que o separava
Entre a vergonha e a cubata
Meta que fixava lá em cima
Rasgando a pele e a carne
Nas quedas sucessivas no desequilíbrio do passo
E da linguagem de insulto
Mas que sempre repetia até ao esgotamento.
Segurar fraternalmente todas as tuas mãos de esmolar
Saindo lenta e timidamente
Mãos-baixo-relevo de profundos rios
A espreitarem da larga manga
Que a solenidade dos panos definia
E uns olhos baços de lágrimas ausentes por ineficazes
Olhavam na espera de nada.
E de mãos dadas convosco
Percorrer a estrada em direcção ao futuro
E à dignidade sem esmolas.
Acolher-te em meus braços de eterno amante
De tua serena beleza
De filha da baía
Mistura de sal e terra
Que num permanente contacto de ventres
Com sexo de ondas
Vai mantendo com o Sol
Percorrendo de afago teus contornos
Que ao fim do dia
Timidamente ruborizado
Se suicida no Mar.
Hei-de edificar-te, Luanda!
Reis Caçote
1970
11 - LUANDA
Luanda:
Entre nós há
Todo este imenso lado de oceano
Que podia ser de lágrimas!
Só não é por que te invento
Sem distâncias a separar!
Reis Caçote
1970/dig.02/14
12 - ANGOLA
Vastos espaços, vermelhas terras
Correntes de aço segurando mares
Poeirentas estradas, estreitas picadas
Fogo no sol, calmos poentes
Trevas da noite, estranhos ruídos
Mangas, gajajas, abacaxi…
Matas densas, feras à solta
Humanas, selvagens desnorteadas
Vales férteis, mansos rios
Cidades novas, musseques, arranha-céus
Bares com luz, sem luz, cerveja fresca
Quitetas, camarão, lagosta…
Gentes alegres, outras sombrias
Marés-calmas, violentas, frias
Vilas velhas, fazendas destruídas.
Corridas breves nos vales férteis
Ruídos metálicos nas poeirentas estradas
Angola das noites cálidas, desconhecida!...
Reis Caçote
1968/dig/02/14
13 - OS ADULTOS
Indolência teimosa que meus passos queres retardar.
Passos clandestinos
Que apenas levam à noite dos meus dias
Porque conduzidos pela ignorância
De um deus teimoso.
Testemunhas de um facto consumado
Errando num mar de bruma
Translúcido.
Pobres néscios que ainda crêem
Nas virtudes de um renitente
Misturados no presente com os não crentes
Os que olham mais alem, sem peias
Os Adultos.
Reis Caçote
1968/dig/02/l4
14 - VIAGEM E CHEGADA
Oito dias de viagem, quase nove
Ininterruptamente.
Mares calmos, tempestuosos
Gaivotas poucas eu vi.
Peixes voadores e água, muita água
Essa sim, perdia-se de vista.
No cais, negros e sacos de cimento
Notei mais o calor.
Marchando logo vi brancos
Colchas nas varandas, mãos acenando
Rostos suando ao Sol do meio-dia
Mar de caqui na marginal.
Baía ampla, elegantes palmeiras
Pirogas toscas, vento arredio
Indolentes águas como quitandeiras
Apregoando bananoê!
Reis Caçote
1968/dig.02/14
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