POESIA TEMÁTICA - ENSAIO - 10 POEMAS - 1º Chama de Saudade

 






POESIA NÃO TEMÁTICA – ENSAIO



( Inclui 10 poemas, de vários períodos)



I – CHAMA DE SAUDADE

Atrás daquela janela

está acesa uma vela.

Não alumia um altar

é a fotografia de um militar!



II – EMIGRAÇÃO

Para terras de França partiu

mais um irmão meu.

Como os outros

clandestinamente

como os outros

analfabeto.



Ficarei mais rico sempre que um irmão parte ?



Não !

Como eles tambem reneguei

a herança

mas nunca partirei para

terras de França !



Enquanto em mim residir

a esperança

não a apregoada

sim a idealizada

em cada dia

apenas de poentes

que só a Natureza

ousa colorir!



III – OS HERÓIS

Meu remo partido

no lombo do mar

Meu coto de braço

perdido na guerra

Meu resto de perna

amputação de bomba

Meu olho a menos

perdido na mata

Meu pensamento interromido

pela última explosão.

Coto de braço

resto de perna

olho a menos

pensamento interrompido

Meu remo partido no lombo do mar…

Sou o que resta de um Herói do acaso!



IV – CASAS BRANCAS

Fartos de frio

fartos de fome

farto o frio de fome

farta a fome de frio

Vietname ! Paquistão ! Biafra !



Discussões duras nas Casas Brancas

sobre a fome de frio farta

sobre o frio de fome farto

Nas brancas casas discute-se duro

sobre as casas sem cor

dos de fome fartos de frio

dos de frio fartos de fome

A frio se discute duro nas Casas Brancas

Alçapões de consciências !



V - GUIA TURISTICO

Vedes além

engravatado

aquele homem parado ?

Não é um vadio

um ocioso

é um “senhor deputado!

A atravessar a rua

gorducho

de charuto na boca

e olhar sinistro ?

Não é um assassino

ou um cauteleiro

é um post-ministro !

Daquele lado da rua

com duas moletas

em metal cromado ?

Não teve um acidente

veio da guerra

era soldado !

Lá mais acima

a meio da encosta

e a luzir ?

São telhados de barracas

de gente humilde

para demolir !

Aquele todo sujo

de andar lento

e grande cifose ?

Não é um desempregado

é um mineiro

de pulmão silicose !

Junto do portão

aquele homem novo

e mal encarado ?

Não é um aluno

não é um professor

é um PIDE disfarçado !



VI – SOMBRA OU VÉU

Vai uma sombra no céu

uma sombra negra

que não é nuvem

É véu !



VII – O SONO

Envolve-me ainda esta

sensação matinal

de fingir de morto !



A noite passada

de olhos fechados

enquanto:

os rios correm

nascem cachorros

cimentam mentiras

iniciam guerras

reiniciam outras

morrem crianças
É um insulto à Vida !

Vou iniciar a revolução:

fazer explodir uma Primavera

pela manhã de flores

fazer troar meus canhões de vagas

a acordar os rochedos

fazer ao ar minha esquadrilha de

pássaros coloridos

fazer invadir de lavas verdes

estes vales

fazer desembainhar

minha espada de brisa

Fazer incendiar de poentes a cidade!





VIII – ESPERANÇA ou FÉ



Na casa “inabitada” ainda vive

uma saudade

feita de um ténue calor humano !



E as paredes murmuram

tristemente: virá este ano ?



E todos os anos o dizem

cada vez mais tristemente

não querendo aceitar

a inabalável certeza:

Para sempre ausente !





IX – AOS HERÓIS



Deixai-me pintar de luz

a noite:

de armas ao lado dos corpos

no capim de sangue

nas raizes

deste sábado da Vida!


Deixai-me pintar de luz

estes olhos de espanto

que já não querem mais armas

nem mais guerras

nada querem

nada pediram

aceitaram por “valentia”

de heróis do acaso!



Deixai-me pintar de luz

esta lápide:

de galões à volta

da guerra de dourados e prateados!



Deixai-me pintar de luz

esta falha de além-mar

para não destoar!

Os heróis não podem destoar !





X – LÁPIDE



Esculpir para quê ?

Esculpir o quê ?

Qualquer bloco

amorfo

informe

está certo para homenagear

os heróis da guerra !

A maioria deles morreu!


Reis Caçote
























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