POESIA DOS ANOS 60 - 14 POEMAS - COM 3 FOTOS

 

POESIA DOS ANOS 60

  


             DÉCADA DE 60 – DESPONTAR DE TANTA FLOR NA SAVANA DA GUERRA COLONIAL

O CONJUNTO TEM 14 POEMAS: 1º ESTRELAS e 14º MOÇÃO


1 - ESTRELAS


Estrela teimosa

Persistindo no suicídio

Por afogamento

Em cada noite que passa

E olho

Ali em baixo

Água parada

Em que procuro ver reflectidas

As rugas do meu pavor.

Que vem dos ramos sem andorinhas

E se agitam de frio

De lágrimas de estrelas

Sem lagos para o seu suicídio

De todas as noites.

Reis Caçote



2 - O QUE TENHO- publ- em 15/12/20-conta II


O que tenho?


Um domingo quase no fim do látego

Uns montes que me oprimem

Um aparelho tv mal funcionando

Um programa repetindo

Umas nuvens baixas negras de chuva

Um vento estropiado de trote de rio barrento

Um quadro meio queimado

De castanho mal pintado

Uma falta enorme de inspiração

Para a revolta!


Uma merda!

Reis Caçote



3 – VINGANÇA – publ.16/12/20-conta II


Incapaz de pensar

Para escrever

Escrevo

P’ra não pensar!

vingança da incapacidade!

Reis Caçote



4 - OS POETAS- PUBL.17/12/20-II CONTA


Como eu admiro os poetas

Que conseguem ver uma flor

                                       Onde apenas vejo musgo

Que conseguem ver uma estrela

                                       Onde apenas vejo uma lágrima

Que conseguem ver um amplo sorriso

                                       Onde apenas vejo um esgar

Que conseguem ouvir um hino

                                       Onde apenas oiço soluços

Que conseguem ver límpidos contrastes

                                       Onde apenas vejo um borrão de cores esbatidas

Que conseguem ver um puro regato

                                       Onde apenas vejo uma torrente de lama!


Ah! Eles são os verdadeiros poetas

                                       Eu sou um complicativo.

Reis Caçote




5 - DIFICIL SER- publ.18/12/20-conta 2


Difícil ser vagabundo

De sonhos verdes

De banco de jardim.


Só resta o musgo nos muros

E outro pretenso vagabundo

Ao pé de mim moribundo.


Como é difícil ser vagabundo!

Reis Caçote



6 - EM BUSCA DE


Mais uma tarde inteira corri

Pela tempestade de poentes

                                       De doirar lágrimas

Na esperança de encontrar-te

                                       Nua

Em qualquer parte

                                       Verdade


Voltei já tarde

Pelos mesmos caminhos

De látego marginal

Procurando correr de cansaço

Atrás de mim próprio

Com a ideia de continuar amanhã

Com os pés descalços

Sobre as papoilas de lábios cerrados

Descrentes como eu

          De encontrar-te

Em qualquer parte!

Reis Caçote



7 - FARTEI-ME


Fartei-me de carregar este fardo

De bruma constante

Que dificulta o voo das andorinhas

De todas as primaveras

À procura de seu ninho inabitável

De musgo nas janelas

E frio.

Frio de grades de aranha

A passar pelos corredores do cansaço

Da tarde que não chegou ainda

Mas se avizinha

Com a tristeza do trevo à chuva…

Reis Caçote



8 - INSULTO


Insulto matinal

De rafeiro de cauda erguida

No seu gesto natural

De levantar a pata traseira

E mijar

Displicente

No pedestal do busto

Do comendador!

Reis Caçote



9 - MORRER EM PÉ


Não para que todos soubessem

Mas gostaria de não morrer como eles.


Gostava de morrer na rua

Numa explosão

E projectar no espaço de bruma

O que não consegui em vivo

Tudo o que bom possuía .


Gostava de morrer em pé!

Reis Caçote



 10 - ACUSAÇÃO


Continua a formar-se geada

No caminho de todas as cabras

No pasto de todos os vendavais

No recanto de todas as fomes

Fomentadas.


Castigo frio para os que

Se cobrem com o Sol.

Os fabricantes dos cobertores dos outros.

Os que andam apressados pelos trilhos de todas as cobras

Cortados pelas lâminas de todos os nortes

Ameaçados com promessas de calor

Cansados…


Mas que a lua também beija.

Reis Caçote



11 - SEREI TALVEZ


Serei talvez um marginal

Por não aceitar

A amorfa confusão

Da sociedade a que na superfície pertenço.


Fartei-me

                    De amplos gestos

                    De palavras rebuscadas

                    De frases inconvenientes

                    De alardes de heroísmo

                    De revolucionários de café

                    Do colorido artificial e inútil

                    Da guerra dos jornais

                    De futebol.


Não preciso disso para escrever.

Reis Caçote



12 - NEM SÓ


Habitar sozinho

Esta raiz de orvalho

E espreitar pela manhã

A vida

Que se avizinha

Mo arrastar de pés cansados

Do dia anterior

E

Convidar esses seres

Para a refeição que não tiveram

E

Dizer-lhes que

Como os Senhores

Têm direito à vida

Pois nem só de trabalho

Vive o Homem.

Reis Caçote



13 - OUVIR SEUS AIS – publ. Conta 1- 18/01/21


Gesto guilhotina a rasgar

O véu translúcido

Mal cobrindo a ignorância

Não aceite

Só por alguns desejada.


Tempestade de pântanos

Calada elo chicote

Do não saber

Apenas poder.


Campeões do silêncio

Da incerteza

Do medo

Do isolamento

Dos favores dos senhores

Da inconsciência permanente

Dos deveres

Dos direitos que não conhecem

Do dizer sim quando é não

Das palmas nas ruas

Das flores nas ruas

Para não serem sempre campeões do silêncio

Para lá do véu que rasguei

Com gesto guilhotina

Numa manhã de coragem

                    Para ouvir seus Ais.

Reis Caçote



14 - MOÇÃO


Vai ser posta à votação

Na magna assembleia

Uma moção:

          Para criação de um feriado

          Que distinguirá o jardineiro

          Deste jardim

          À beira-mar plantado.

Se for “sim” haverá feriado

Se for não

          - Poderá ser não ?

Será exilado.


Reis Caçote





Publicada por jose 




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