POESIA - NÃO TEMÁTICA : SÃO 20 POEMAS ; 1º LIVRE E DIFERENTE.....20º E SE...
POESIA NÃO TEMÁTICA
NESTE PONTO O FICHEIRO POESIA MILITANTE TINHA 95 PÁGINAS E 7054 PALAVRAS, VOU CONTINUAR…!
1 - LIVRE E DIFERENTE
E por fim
Cansado
De tudo de ti para mim
Conservar
Verifico com alegria e tristeza
Num mesmo espaço-tempo
Que teu destino
Como o infinito
É ser isso mesmo
Albergar tudo
O bem e o mal
Infinitamente grande
A sempre prometer
Mas nunca se dar
Para ser livre e diferente ?!
Reis Caçote
2 - FICAR, JAMAIS
Faço um esforço sobre humano
Para conservar dentro dos meus
Os olhos teus.
O teu breve e invulgar sorriso.
O sentir perto teu calmo gesto
Onda fresca e salgada de mar
À areia ainda fresca e húmida chegar
A abalar a chegar a abalar
Sempre assim
A chegar a abalar
Como temos feito sempre:
Chegar-abalar
Vir-partir
Ficar é que nunca
Como o Mar !!!
Reis Caçote
3 - PERGUNTAS AO CRIADOR
Desde há anos vários que ando a adiar
Ter contigo esta conversa sã
Ainda que a esperança seja vã
De te ver acordar e dialogar.
Mas esse teu sorriso de ironia
Mantém-se exatamente igual
Desde “aquele dia “a este dia !
Um sorriso de satisfação e prazer
É o que me recuso a ver.
É que se fizeste o que tantos afirmam
O mundo e tudo o que contém
Há uma quantidade de anos
Não sei bem
Ou não foste tão rigoroso quanto dizem
Ou então
Terás de compreender
A minha incompreensão e
Por que não
A minha critica à tua obra
E ao teu sorriso gozão !
Terás mesmo feito o homem à tua imagem
Ou será mera desculpa dos actuais construtores ?
É que alguns deles e não deixarás de me dar razão
Saíram uns bons estupores !
Acredito que ao fim de seis dias de trabalho
Fosse evidente teu cansaço
Já que nesse espaço d tempo eu faço
Bem menos e de certeza pior
Mas não o dou por acabado !
E lá estou no dia seguinte sem enfado
Para o continuar e
Muitas vezes aperfeiçoar !
Tu não !
Construíres tudo o que por aí vai
E ao sétimo dia descansares
Irás desculpar mas é dares-te
Uns certos ares… e sobretudo
Demasiado confiares !
E a porcaria que seria de esperar
Aí está
Em tudo o que é vergonha
Em tudo o que é explorar !
Terás sido tu porventura
Quem deixou dito e escrito
Que o Norte exploraria o Sul
E que o branco seria dos outros patrão
Durante séculos de escravidão
E que hoje ainda aí está
Dito que está erradicada
Só que feita de forma mais descarada
Mais desenfreada
Logo mais desesperada !
Que nada tens a ver com tanta contradição
Terá sido de outros e muito mais tarde
A criação de tanta aberração !
E terás sido tu quem entendeu
Que minha companheira não seria como eu ?
E porquê, explica, se de ti partiu a decisão
Reis Caçote
POESIA MILITANTE
4 – FRIEZA
Dos olhos daquela criança
Que chora
Aparei cristalinas
De cada olho uma lágrima
Que coloquei nos teus olhos de estátua
Insensibilidade de pedra
Já que nunca tinhas chorado:
Nem lágrimas de criança se ajustam
Aos teus olhos !
Serão de vidro ?!
Reis Caçote
5 – ORATÓRIO
Atrás daquela janela
Está acesa uma vela
Não alumia um altar…!
Mas a fotografia de um militar !
Reis Caçote
6 – EMIGRAÇÃO
Para terras de França partiu
Mais um irmão…
Como os outros clandestino
Analfabeto como os outros.
Ficarei mais rico sempre que um irmão parte ?!
Não !
Como eles reneguei a herança
Mas nunca partirei para terras de França.
Enquanto em mim residir a esperança
Não a apregoada na fé
Mas a na falta de fé idealizada
Em cada dia
Apenas de poentes
Que só a natureza
Se permite colorir !
Reis Caçote
7 - DO HERÓI
Meu remo partido no lombo do mar
Meu coto de braço perdido na guerra
Meu resto de perna amputado de bomba
Meu olho a menos perdido na mata
Meu pensamento interrompido pela última explosão.
Coto de braço
Resto de perna
Olho a menos
Pensamento interrompido
Meu remo partido no lombo do mar
Sou o que resta de um Herói da guerra !
Reis Caçote
8 - “ONU – NATO
Farto de frio
Farto de fome
Farto o frio de fome
Farta a fome de frio
Vietname ! Paquistão ! Biafra !
Discussões duras nas Brancas casas
Sobre a fome de frio farta
Sobre o frio de fome farto
Nas Casas Brancas discute-se duro
Sobre as casas sem côr
Dos de fome fartos de frio
Dos de frio fartos de fome
A frio se discute duro nas Casas Brancas
Alçapões de consciências !!!
Reis Caçote
9 - OTORRINO
E do alto da vestida sabedoria branca
Brotou a negra sentença:
Tens de pensar sábio !
Passei a ver só um bisturi !
Grande demais para amputar
Minhas cordas vocais !
Mas aqui para nós:
Se tiver que ser operado
E gritar não for capaz
Virei à mesma p’rá rua
Com meu grito num cartaz !
Sempre que tiver razão
Lá estarei de cartaz na mão
Calarem-me é que não !
E se meu grito
Não couber num só cartaz
Gritarei em dois
E se preciso for escreverei
Pela frente e por trás !
E se me cansar do cartaz
E continuar a ter razão
Como agora
Olharei para trás e
Num repelão
Deitar-vos-ei a língua de for !
Não esperarei que m’a puxem
Nem ouvirei vosso palavrório
Como sucedeu naquele dia
No
teu consultório !…
Reis Caçote
10 - GUIA “TURÍSTICO”
Vedes além
Engravatado
Aquele homem parado ?
Não é um vadio
Um ocioso
É um “senhor deputado “ !
A atravessar a rua
Gordinho
De charuto na boca
E olhar sinistro ?
Não é um assassino
Nem um cauteleiro
É um post-ministro !
Daquele lado
Com duas moletas
Em metal cromado?
Não teve um acidente
Veio da guerra
Era soldado !
Lá em cima
A meio da encosta
A luzir ?
São telhados de barracas
De gente humilde
Para demolir !
E aquele todo sujo
De andar lento
E grande cifose ?
Não é um desempregado
É um mineiro
De
pulmão silicose !
Falta o último conjunto
Reis
Caçote
11 - PRIMAVERA
Dia 21 de Março…
Levantei-me cedo e fui acordar o Sol,
Tinha a intenção de em seguida ir
Escrever uma ode à Primavera !
Ruiu pela base o plano ao recordar o
Abate sistemático e organizado
De qualquer tipo de arvores e no lugar delas
Acumular toneladas de cimento e tijolos
Desequilibrando o sistema anterior.
É Primavera !... ( e por aqui ficou o poema )
Agora
vou para a rua construí-la !..
Reis Caçote
12 - A CARA DO ÂNGELO
Trazia no rosto o rubor e a alegria
Dos catorze anos incompletos
E da corrida do atraso para o jantar.
- então que houve ?!
Espontâneo ! Alegre !
Estivemos a preparar uma insurreição !
- … ! Uma insurreição ?!...!...!
Metemos pregos e fósforos em todas as fechaduras
Do prédio aqui ao lado !
Metemos na estrada aqueles ramos de oliveira
Que foram cortados há dias ao fundo da rua !
O atraso foi maior por andarmos à procura de um policia
Para o atropelarmos com as nossas bick !
Desculpa lá o atraso, mas tinha de ser! …
Posso ver o último telejornal ?
…?!...
É
só para ver a cara do Ângelo !!!
Reis Caçote
13 - INVASÃO DO CIMENTO
Para silenciarem o coaxar das rãs no charco
Construíram de cimento um mausoléu
De oito filas de “gavetas”
A seguir à minha janela das traseiras
Roubando-me
Insensatos insensíveis
O pomar
O rio
O Sol
A Lua
Mas eu invento-os :
Com rãs no charco
E
a espreitar pelas janelas !
Reis Caçote
14 – PROMESSA
Fica a solene promessa
De contar todas as estrelas
Assim que desapareça a tristeza
Dos
olhos das crianças !
Reis Caçote
15 - OFERTA
Dentro em breve oferecer-te-ei
Naturalmente
Este jardim
Com rosas e pássaros coloridos
Poisados
dentro dos teus olhos !
Reis Caçote
16 - NO JARDIM PUBLICO
Esfreguei com força
Uma duas três vezes os olhos.
Aquela imagem mantinha-se ali
Quieta
Provocatoriamente quieta
Ao Sol fraco de fim de Setembro.
Sobre o banco do jardim
Lado a lado abraçados
Blusa e saia / casaco e calça.
No chão
Lado a lado também
Dois pares se sapatos
Um de tamanho e modelo para homem
Outro de tamanho e modelo para mulher.
Peça escultórica de escola impressionista !?
- Num jardim público ?!!!
Aproximei-me mais e entre as calças e a saia
Num pequeno pedaço de papel “transparente “ li :
Subimos ao céu mas pouco demoramos
Conservai
nossos únicos bens !
Reis Caçote
17
- FELIZES
Se às estátuas que enfeitam os jardins
Onde crescem as flores e árvores
E a miséria
Perguntassem se eram felizes
Certamente ouviriam e veriam como eu
Um não plasmado nos seus lábios de musgo
E
veriam lágrimas a pingar nos lagos !
Reis Caçote
18
- CALMOS SONHOS
Belos e calmos serão vossos sonhos
Prolongados que são pelos profundos sonos
Quase intermináveis !
Eu mal durmo
Com cada vez maiores pesadelos !
Por isso me levanto cedo
E com vontade de me não deitar.
Prefiro estar acordado… sempre…
Mesmo na noite
Que alguns querem artificiosamente aumentar !
Estar aqui fora ao Sol com outros
Abrir novos espaços com outros
Para poisarem as pombas brancas que
Cansadas
Escorraçadas
Sobrevoam
todo o Mundo !…
Reis Caçote
19
- DIA DE NATAL
Seis anos de idade…talvez
Um metro de cidadão
Dentro de um arremedo de camisa
E dumas esburacadas calças
Que mal chegavam aos pés nús
Frios
Como esta manhã de 25 de Dezembro.
De peito côncavo
Esquivando-se ao frio
De mãos nos bolsos vazios
Fugindo ao frio
Olhava :
O outro menino à sua frente parado.
Dirigiu-se a ele
De mãos frias nos bolsos vazios
Colocou seu pé nú
Ao lado da bota nova
Azul
Do outro menino.
Espreitou
De um e outro lado
Será que sorriu ?!
Parecendo satisfeito com a análise.
Tirou uma das sujas mãos do buraco-bolso
Coçou sua cabecita suja num gesto-hábito
Dos sempre em dificuldade,
E correu passeio adiante
Com o Natal nos olhos
Em
busca de umas botas azuis !…
Reis Caçote
20
- E SE…
E se
Um ministro do ultramar
De Salazar
Das guerras coloniais
Fala em paz e democracia
Isso será demagogia ?
E se
Quando dás uma moeda
Ao miúdo pedinte
E lhe recomendas que é para um bolo
Isso não será o F.M.I. ?!
E se
Um desconhecido
À mesa do café
Vinte paus na mão
Para uma bica de dez
Optando entre receber o troco
E o perder a camioneta
Resolveu pagar o teu café
Isso
é impulse ?!
Reis Caçote

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